A dívida pública ainda diversifica um portefólio multiativos? Depende!

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A dívida pública sempre foi conhecida por ser um lugar seguro no mundo dos investimentos. Um lugar que permitia a um portefólio apertar o cinto de segurança em alturas de maior volatilidade e, quiçá, ainda receber alguns cupões. Essa premissa já não é assim tão linear. O próprio conceito do ativo viu-se alterado pela conjuntura de mercado, em que as taxas de juro quebraram o zero e navegam agora em terreno negativo em grande parte do mercado. Num encontro promovido pela Carmignac, e com a presença de três profissionais nacionais da gestão ou seleção de fundos, quis perceber-se qual o papel deste ativo nos produtos multiativos. Serão ainda uma fonte válida de diversificação? A resposta parece ser “depende”.

Precisamente nessa perspetiva, Ramón Carrasco, diretor de desenvolvimento de negócio na Carmignac, começou por explicar que “há espaço para dívida governamental, mas com algumas limitações”. O que isso quer dizer? No seu entender, a premissa de que não existe valor em fixed income, nomeadamente em governos europeus core, apenas é verdade quando se aborda o ativo com uma visão estratégica long-only. “Olhando, por exemplo, para o bund a 10 anos existe uma yield líquida que ronda os -0,3%; neste caso aplicaríamos uma estratégia flexível em que se pudessem executar posições taticamente longas e curtas, investindo, mas também gerindo ativamente a cobertura”, assinala. Olhando para o momento atual a Carmignac vê as obrigações governamentais core como “bastante caras”. Nas não core – como a dívida da Grécia, Portugal, ou Espanha – mantêm algumas posições, embora com uma gestão ativa das mesmas.

“Olhando, por exemplo, para o bund a 10 anos existe uma yield líquida que ronda os -0,3%; neste caso aplicaríamos uma estratégia flexível em que se pudessem executar posições taticamente longas e curtas, investindo, mas também gerindo ativamente a cobertura.”

Deste modo, o “depende” acima referido está mais do que justificado. “Se num ativo de dívida governamental o investidor vê algum carry, poderá considerá-lo tendo em conta outros critérios, tais como as tendências dos movimentos das taxas de juro“, comenta o responsável. Nas estratégias multiativos da casa as obrigações governamentais são, ainda, apelidadas de investimentos “chave”, mas considerando o referido atrás: com a possibilidade de gerir ativamente e de cobrir taticamente posições.

Ainda é um safe haven?

Para Inês Castro, head of fund selection na DWM do Millennium BCP, o conceito de segurança desta classe de ativos ainda não caiu em desuso. “As obrigações governamentais são ainda o maior ativo safe haven em períodos  de maior volatilidade”, começou por dizer. Na experiência da entidade, estes ativos continuam a ser muito úteis numa perspetiva de amortecedor dos portefólios que têm em mãos, embora haja sempre algumas particularidades a considerar “Creio que a correlação histórica que a dívida pública tem tido com os outros mercados irá provavelmente deixar de ser tão efetiva no futuro, nomeadamente no lado europeu. Isto, devido às yields extremamente baixas ou negativas das obrigações governamentais, em que cerca de 60% das yields são negativas. Em períodos de taxas de juro muito negativas, o efeito estabilizador da dívida pública é menos eficaz. No entanto, também é importante separar a dívida pública norte-americana da europeia. No caso da dívida americana, esse efeito estabilizador é maior, como se verificou no primeiro trimestre de 2020”, perspetiva. 

“As obrigações governamentais são ainda o maior ativo safe haven em períodos  de maior volatilidade.”

Para Miguel Taledo de Sousa, diretor de investimentos da sucursal da Bankinter Gestión de Ativos em Portugal, a diferença entre a dívida denominada em dólares ou euros é de facto importante para a conversa. Neste sentido, acredita que no espaço denominado em euros, no mundo em que vivemos, o safe haven é outro. “Acho que será mais o cash do que as obrigações governamentais, pelo menos com yields negativas ou a zero”, assinalou. De outra forma, questiona se é justo “cobrar comissões aos clientes ao mesmo tempo que se lhes diz que terão uma perda calculada numa parte do seu portefólio… apenas justificada por essa eventual segurança que pode existir nas obrigações governamentais? Em liquidez existe essa mesma segurança!”, alega.

“Acho que [o safe haven] será mais o cash do que as obrigações governamentais, pelo menos com yields negativas ou a zero.”

Atualmente na instituição onde trabalha, admite que têm “quase 0% de exposição a dívida governamental”, e têm tido quase 0% de exposição a esta classe de ativos nos últimos dois anos. Assim, hoje em dia, reservam apenas para alguns portefólios específicos, onde a política de investimento obriga a ter exposição a dívida pública, “um pouco de dívida italiana,  porque o perfil de risco/retorno tem-se mostrado atrativo”.

Da BPI Gestão de Ativos, Luís Alvarenga, CFA, portfolio manager, também aporta uma perspetiva bastante similar às anteriores e é assertivo ao referir que “em obrigações, os retornos não são só gerados pelo carry. Existem outras formas de gerar performance”. Factualmente, como referiu, é possível dizer que “as obrigações governamentais têm uma correlação  inferior  a um com os portefólios de ações”. Desse modo, é da opinião de que a inserção deste ativo numa carteira multiativos pode trazer diversificação. “Essa correlação muda e varia ao longo do tempo, mas não é um. Por isso acredito que existe espaço para esta classe de ativos na construção de uma carteira diversificada”, atestou. Trazendo para a mesa uma retrospetiva, Luís Alvarenga assinalou que “um benchmark de obrigações governamentais europeias nos últimos 20 anos apenas registou um ano negativo, de -0,3%”.

Luis Alvarenga_BPI

“Essa correlação muda e varia ao longo do tempo, mas não é um. Por isso acredito que existe espaço para esta classe de ativos [de dívida pública] na construção de uma carteira diversificada”

Descartar a classe de ativos não é portanto opção, na sua perspetiva. “Se há coisa que vimos nos últimos 20 anos é que quando os tempos se tornaram mais difíceis há sempre a possibilidade de os gestores olharem para as obrigações alemãs e outras, de forma a encontrar alguma forma de safe haven”, relembrou.