A nova era dos investimentos: como a tecnologia, a energia e a geopolítica redefinem o mercado

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Isabel de Liniers, João Pina Gomes, Nuno Sousa Pereira, Fátima Só. Créditos: Vítor Duarte

A deslocalização, a defesa e a inteligência artificial como motores da transição global foi o tema central do pequeno-almoço organizado em parceria com a DWS. Neste debate, Isabel de Liniers, senior sales da entidade, Fátima Só, gestora de fundos da GNB Gestão de Ativos, Nuno Sousa Pereira, CIO da Sixty Degrees, e João Pina Gomes, gestor de portefólio da BPI Gestão de Ativos, partilharam as suas perspetivas sobre os setores que estão mais expostos a transformações estruturais impulsionadas pela inteligência artificial.

Entre esses setores, o tecnológico surge de forma natural como o principal beneficiário das grandes necessidades de computação e da crescente procura por inteligência artificial. “A expansão desse setor exige mais servidores, maior capacidade de memória nos chips e melhores redes de comunicação, o que impulsionou significativamente o seu crescimento. Como consequência, a necessidade de investimento também tem vindo a aumentar”, explica Fátima Só. Este desenvolvimento tecnológico tem efeitos diretos no setor industrial, essencial para o funcionamento dos data centers. “Estes centros necessitam de sistemas elétricos a operar de forma contínua, o que implica uma infraestrutura de vários equipamentos elétricos, todos fabricados por empresas do setor industrial”, refere a profissional da GNB GA. A esta realidade junta-se o papel incontornável do setor energético, uma vez que a operação contínua dos data centers depende de uma fonte de energia estável e sem interrupções. Nesse sentido, revela Fátima Só, as fontes de energia mais eficientes, como as renováveis e a nuclear, têm sido cada vez mais discutidas. “Esse foco nas energias sustentáveis levou a um aumento dos investimentos em áreas que haviam sido negligenciadas anteriormente”, acrescenta.

Além destes setores mais diretamente ligados à infraestrutura e à tecnologia, Isabel de Liniers destaca o setor financeiro, onde o impacto da inteligência artificial poderá ser “particularmente rápido”, sobretudo nas áreas mais burocráticas. Embora não se preveja uma substituição significativa nas funções de gestão, “existe um elevado potencial de melhoria de eficiência em atividades administrativas”, afirma. A profissional sublinha igualmente o impacto direto no setor da saúde, tanto ao nível da investigação como da aplicação prática de novas soluções tecnológicas. “De forma geral, o potencial da inteligência artificial para aumentar a produtividade, reduzir tempos de implementação e transformar a economia dos fornecedores de bens e serviços é muito significativo”, explica. João Pina Gomes acrescenta ainda os setores do consumo e do retalho: “Nestes, a inteligência artificial tem um papel particularmente relevante em áreas como o pricing dinâmico, a gestão de stocks e a personalização da oferta, permitindo ganhos significativos de eficiência e competitividade”, afirma.

Por último, Nuno Sousa Pereira chama a atenção para o papel central da indústria militar na adoção e no desenvolvimento destas tecnologias. “Historicamente, os avanços tecnológicos têm sido primeiro aplicados no contexto militar, sendo posteriormente adaptados à vida civil”, explica o profissional. O CIO da Sixty Degrees acrescenta ainda que o complexo industrial-militar “dispõe de recursos substancialmente superiores aos das empresas civis, o que lhe permite investir mais rapidamente e em maior escala”. 

Transição energética: o papel da geopolítica e da tecnologia

Ao longo da história, a evolução da humanidade tem sido acompanhada por um aumento contínuo do consumo de energia em cada nova fase de desenvolvimento. Neste sentido, Nuno Sousa Pereira sublinha que a atual transição tecnológica, marcada pela automação generalizada, “exigirá inevitavelmente níveis ainda mais elevados de produção energética”. Para que essa transformação ocorra, considera ser necessário um “horizonte temporal alargado” e, sobretudo, “um reforço significativo da redundância energética”, num contexto de crescentes tensões geopolíticas. Estas tensões levantam também a questão de um eventual desvio de foco da transição energética. “Por um lado, certas aplicações militares continuam a depender de combustíveis fósseis; por outro, existe um incentivo crescente para melhorar a autonomia energética destes equipamentos, reduzindo a dependência de cadeias logísticas vulneráveis”, explica. 

O reforço da produção e distribuição de energia é igualmente destacado por Fátima Só. Contudo, a profissional sublinha que a liderança neste processo pertence atualmente à China. “A China já consegue gerar o dobro da energia elétrica dos Estados Unidos, apesar de ter um consumo per capita que é metade do dos Estados Unidos”, explica. A este desafio, Isabel de Liniers acrescenta uma dimensão estrutural, alertando para a dependência de minerais críticos: “A modernização das redes elétricas e o reforço da segurança energética dependem fortemente do acesso a minerais críticos, como o cobalto, as terras raras e o lítio, cuja produção e extração se encontram fortemente concentradas em poucos países”. Esta realidade coloca desafios significativos às cadeias de abastecimento. “Alguns países, como os Estados Unidos, já estão a realizar investimentos neste domínio. No entanto, a China surge novamente com uma vantagem competitiva relevante, o que reforça a dependência de fatores e riscos geopolíticos”, sublinha. Neste contexto, ambas as profissionais consideram fundamental que os Estados Unidos e a Europa acelerem os investimentos na geração de energia elétrica

Importa ainda destacar, segundo João Pina Gomes, o fator dafragmentação tecnológica: “A inexistência de padrões globais comuns constitui um entrave significativo, a que se somam as barreiras comerciais, nomeadamente a aplicação de tarifas sobre determinados equipamentos, como painéis solares e baterias”, explica o profissional. Estas restrições contribuem para o aumento dos custos e dificultam a expansão e adoção em larga escala destas tecnologias. Por outro lado, considera que a geopolítica também pode desempenhar um papel acelerador. “A existência de uma dinâmica de competição tecnológica entre grandes potências, como os Estados Unidos e a China, bem como o enquadramento regulatório europeu, pode funcionar como um catalisador para a inovação”, afirma João Pina Gomes. 

Mitigar riscos e identificar oportunidades

Tendo em conta este contexto, torna-se essencial identificar estratégias eficazes de mitigação de riscos e potenciais oportunidades. No que diz respeito à deslocalização industrial, João Pina Gomes defende que a mitigação passa por reduzir a dependência de empresas excessivamente expostas a cadeias de abastecimento globais frágeis, privilegiando entidades com produção mais regionalizada. “Esta abordagem visa minimizar o risco de ruturas nas cadeias de fornecimento”, explica. Quanto às oportunidades, destaca vários setores como a automação, a logística e as infraestruturas. Relativamente à segurança e defesa, a mitigação de riscos exige, na sua opinião, uma “atenção acrescida aos enquadramentos e riscos regulatórios”, dada a forte influência das decisões políticas e institucionais neste setor, enquanto no domínio da inteligência artificial, a principal estratégia de mitigação consiste, no seu ponto de vista, em “evitar investimentos em empresas que não acompanhem a rápida evolução tecnológica, reduzindo assim o risco de obsolescência”. 

Seguindo esta linha de pensamento, Nuno Sousa Pereira considera que os investidores devem estruturar as carteiras com o objetivo de mitigar os efeitos da inflação. “Complementarmente, de forma oportunista, devem proceder à alocação de capital em estratégias de médio e longo prazo, que podem incluir capital de risco ou investimentos específicos associados a tendências estruturais de determinadas indústrias”, explica o profissional, acrescentando que estas alocações devem ser realizadas “de forma equilibrada, evitando uma deterioração excessiva do perfil risco-retorno”. Isabel de Liniers reforça a importância de investir de uma forma “flexível e dinâmica”, para que o investidor possa adaptar-se a diferentes contextos de mercado e a diferentes fases do ciclo. “Preferimos ter esta flexibilidade, mesmo no caso da defesa, não nos focamos só na Europa, mas também investimos nos Estados Unidos”, explica. 

Numa perspetiva de classes de ativos, Fátima Só recomenda cautela relativamente à exposição a dívida de longo prazo, devido ao risco associado ao aumento do investimento público. Na sua opinião, outra forma de mitigar riscos, sobretudo os associados à inflação, passa pela diversificação através de matérias-primas. “Alguns metais poderão beneficiar diretamente de tendências estruturais como a eletrificação da economia e o avanço da inteligência artificial, configurando oportunidades adicionais de investimento neste tipo de ativos”, afirma. Por último, numa estratégia global de investimento em ações, considera ser fundamental assegurar uma “ampla diversificação”, tanto a nível geográfico como setorial, considerando, para além dos mercados desenvolvidos, a exposição a mercados emergentes.