Ariel Bezalel (Jupiter AM): “A Europa está no ponto mais fraco do ciclo, mas oferece oportunidades táticas”

ARIEL BEZALEL advertorial
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Dois anos depois de afirmar que “não há nada como uma boa recessão para derrubar a inflação”, Ariel Bezalel pode dizer que o tempo lhe deu razão. Hoje, o gestor do Jupiter Dynamic Bond Fund, com Rating FundsPeople, acredita que o ciclo de endurecimento monetário ficou para trás e que os bancos centrais se preparam para uma nova fase de cortes de taxas. Mas, longe de adotar uma postura relaxada, volta a sublinhar a necessidade de prudência: o cenário que se abre será mais fragmentado, desigual e exigente para os investidores em obrigações. “O ambiente continua frágil e assimétrico. A dispersão entre regiões nunca foi tão acentuada”, afirma.

Essa dispersão tem um claro epicentro na Europa. Bezalel considera que o velho continente perdeu competitividade estrutural face aos EUA e à China, e que o seu espaço de manobra fiscal e político é cada vez mais limitado. “A Europa paga muito mais pela sua energia, tem mercados de trabalho rígidos e uma indústria exposta à concorrência chinesa. Países como França ou Itália estão numa situação fiscal insustentável”, alerta.

Na sua opinião, o otimismo inicial gerado pela flexibilização fiscal na Alemanha dissipou-se rapidamente. “O que parecia um impulso de crescimento confrontou-se com a realidade: economias endividadas e sem reformas estruturais. A Europa precisa de uma mudança profunda para voltar a crescer.”

Reposicionar a carteira: mais Europa, mas de forma seletiva

Paradoxalmente, esse diagnóstico severo não o impede de ver oportunidades táticas na região. Nos últimos meses, o Dynamic Bond Fund transferiu parte da sua exposição de obrigações norte-americanas para dívida soberana europeia, aproveitando a subida das yields e o atrativo relativo face aos EUA. “Gostamos dos BTP italianos e dos gilts britânicos, cujos retornos se encontram em níveis difíceis de sustentar a longo prazo. À medida que a inflação continue a cair, as taxas deverão normalizar”, explica.

Com uma duração média de 7,5 anos, o fundo posiciona-se entre os mais longos da sua categoria, com uma clara preferência por dívida soberana (cerca de 55% da carteira). Em paralelo, Bezalel mantém uma exposição prudente a crédito corporativo (25%), com uma duração de spread contida (2,3 anos) e cerca de 15% em high yield de emitentes sólidos, sobretudo em setores defensivos como saúde, telecomunicações, alimentação e consumo básico. “O mercado de crédito está caro e os spreads mal compensam o risco. Neste contexto, preferimos papel de curto prazo e estruturas robustas. A prioridade é proteger o capital”, resume.

Além disso, mantém posições curtas em obrigações francesas e dívida australiana, utilizadas como cobertura contra picos de inflação ou choques de mercado, e uma ligeira exposição líquida positiva ao dólar norte-americano, que considera um refúgio natural em períodos de stress.

Esta rotação para a Europa, esclarece, não reflete uma melhoria estrutural do continente, mas uma aposta de valor relativo. “Não vemos crescimento na Europa, mas há retornos excessivamente elevados em certos pontos da curva. Essa combinação pode gerar retorno à medida que as expetativas de inflação continuem a moderar-se”, acrescenta o gestor da Jupiter AM.

Flexibilidade e emergentes como âncora de retorno

O reposicionamento europeu convive com uma exposição crescente à dívida local de mercados emergentes (20%), especialmente no Brasil e no México, onde a equipa vê bancos centrais mais avançados no ciclo - complementada por pequenas posições na África do Sul e na Indonésia. “O Brasil oferece 14% no seu título a dez anos e tem um banco central credível. O México segue o mesmo padrão. São mercados que podem gerar retornos de dois dígitos em 12 meses”, afirma.

Bezalel defende que a flexibilidade - em duração, geografias e classes de ativos - é a essência do fundo. “Hoje o mundo muda demasiado depressa para se estar preso a um mercado ou a um tipo de risco. Ser dinâmico é vital: se algo não funciona, corta-se e segue-se em frente”, sublinha.

Entre o otimismo e a prudência rumo a 2026

Para os próximos trimestres, o gestor mantém uma visão mista. Nos EUA, prevê uma desaceleração a curto prazo, seguida de uma recuperação em 2026, apoiada por estímulos fiscais e maior investimento em capex. Na Europa, porém, teme que a falta de reformas e o aumento da dívida pública - especialmente em França - se tornem fontes de instabilidade.

Ainda assim, a sua mensagem final é de otimismo prudente: as obrigações voltam a oferecer valor real, mas este não é um mercado para estratégias rígidas - é um mercado para gestores com liberdade e convicção global. “Essa é a vantagem do Dynamic Bond: poder mover-se onde outros não podem”, conclui Ariel Bezalel.