Ben Lambert (Ninety One): “Pela primeira vez em mais de uma década, a diferença de crescimento de lucros entre Estados Unidos e Europa está a comprimir, o que poderá surpreender positivamente”

Ben Lambert
Ben Lambert. Créditos: Cedida (Ninety One)

A filosofia da Ninety One European Equities, que celebra 25 anos de história, continua ancorada na busca pelo melhor de cada fator de mercado: qualidade, valor, crescimento e momentum. Ainda assim, com a entrada de Ben Lambert, gestor do fundo desde 2022, foi tecnicamente renovada. “O que fizemos foi atualizar uma estrutura sólida com ferramentas modernas”, explica o profissional. Desde 2020, a equipa substituiu o antigo modelo quantitativo linear por uma infraestrutura completa de machine learning, capaz de processar mais de mil milhões de dados sobre 20 mil empresas. 

O processo combina tecnologia e mão humana. O modelo quantitativo reduz o universo de cerca de 600 ações na Europa para aproximadamente 250, que depois passam por análise fundamental detalhada. “Pedimos aos analistas para procurarem mudanças marginais, pontos de inflexão, em vez de escreverem relatórios extensos sobre históricos de dez anos. O que nos interessa é perceber onde o mercado pode estar a subestimar ou a valorizar demais um negócio”, resume. Cada nome recebe previsões probabilísticas de desempenho, com cenários de bull ou bear market, por exemplo, permitindo ao gestor medir o risco assimétrico e ajustar o portefólio em tempo real.

O fundo mantém uma composição "core blended", com a maior parte do tracking error proveniente de decisões idiossincráticas de stock picking, em vez de apostas em tendências gerais de mercado. Desde a adoção do novo modelo de machine learning, o portefólio tem registado alfa consistente, com um information ratio robusto e elevada captura assimétrica de movimentos de mercado.

Segundo Ben Lambert, estas métricas comprovam a eficácia do processo em ambientes de elevada volatilidade, distinguindo o fundo de muitos dos seus pares que, na visão do profissional, dependem de um único fator ou de posições concentradas em beta. “Em períodos de correlação estrutural baixa entre ações, este tipo de abordagem realmente funciona. Quando tudo se move em bloco, é mais fácil vender beta como alfa. Nós focamo-nos em encontrar oportunidades únicas e gerir o risco assimétrico de cada investimento”, explica.

Europa em reconstrução

Ben Lambert considera que a Europa atravessa um ponto de viragem estrutural. “Se olharmos para o mercado hoje, o consenso para o S&P 500 é de cerca de 11% de crescimento anual dos lucros para 2026. Para o mercado europeu, situa-se entre 9% e 10% de crescimento esperado para o mesmo período, mesmo após neutralizar diferenças setoriais”, explica. “Pela primeira vez em mais de uma década, a diferença de crescimento de lucros entre Estados Unidos e Europa está a comprimir, o que pode surpreender positivamente”, acrescenta.

No portefólio, a Alemanha é a principal sobreponderação, beneficiando de estímulos fiscais e da expectativa de recuperação industrial. “O crescimento alemão pode acelerar para 2% até 2026, tornando-se uma das maiores surpresas positivas a nível global”. Pelo contrário, o fundo está subponderado em França, por riscos fiscais e políticos e no Reino Unido, devido à incerteza orçamental.

Indústria, defesa e bancos

Setorialmente, o foco recai sobre empresas industriais, defesa e alguns bancos. Ben Lambert sublinha que muitos dos “IA winners” europeus não estão na tecnologia pura, mas em empresas industriais que fornecem infraestruturas para data centers, como Legrand, Prysmian ou Siemens Energy, com posições fortes em mercados norte-americanos. 

Nos bancos, o tom já é mais seletivo, com foco em instituições que permanecem sobrecapitalizadas e oferecem dividendos atraentes. “Após três anos de sobreponderação generalizada, agora é altura de escolher bem. Estamos expostos a nomes periféricos como AIB na Irlanda ou Millennium BCP em Portugal, que combinam valorização do capital e oportunidades de crescimento de crédito”, explica o gestor. 

A defesa é outro tema estrutural. Apesar das questões relacionados ESG e sustentabilidade, Ben Lambert vê um ciclo prolongado de investimento. “70% da despesa europeia em defesa ainda flui para empresas dos EUA. Isso vai mudar rapidamente, e o processo de consolidação vai gerar vencedores claros”. Rheinmetall, da Alemanha e Indra, da Espanha são exemplos de posições de longo prazo apontadas, apoiadas em fluxos de encomendas e ganhos de eficiência industrial.

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