Comissão Europeia questiona o modelo de negócio das plataformas digitais

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Créditos: Paul Hanaoka (Unsplash)

A viabilidade do modelo das plataformas digitais está em perigo. O risco que podem enfrentar é regulatório. A publicação por parte da Comissão Europeia da Estratégia de Investimento de Retalho inclui explicitamente a proibição de incentivos para empresas com um modelo baseado unicamente na execução. O objetivo da Comissão: garantir que o aconselhamento financeiro esteja alinhado com os interesses dos investidores. 

Isto afetará o modelo das plataformas digitais, empresas às quais as gestoras de fundos pagam comissões por comercializar os seus produtos. Afetará, por exemplo, os planos de poupança com ETF concebidos por plataformas como a Scalable Capital ou a Trade Republic, duas das plataformas que mais popularidade estão a ganhar na Europa e que mais ativamente oferecem este tipo de serviços aos clientes de retalho. São os próprios neobrokers online que estão a fazer soar o alarme.

O que dizem as plataformas

Queixam-se de que partes da proposta, na sua forma atual, são contrárias aos últimos objetivos da Comissão e que aumentarão o custo do investimento para as ordens mais pequenas, reduzindo assim a participação dos clientes de retalho, em vez de a promover. Referem também que as suas ofertas de poupança em ETF de custo zero para o cliente se tornará num negócio deficitário, a menos que seja introduzido um custo para os investidores de retalho. Caso contrário, as plataformas digitais não terão forma de monetizar nada e os planos de poupança que já comercializam tornar-se-iam num negócio que iria gerar perdas. 

“A proibição dos incentivos na execução irá afetar milhões de investidores de retalho europeus: aumentará significativamente os obstáculos à primeira participação nos mercados de capitais para os novos investidores de retalho, uma vez que os investidores com contribuições individuais relativamente pequenas são particularmente afetados quando as comissões das ordens são expressas como uma percentagem do montante do investimento”, explica Dirk Urmoneit, diretor de Estratégia da Scalable, à FundsPeople.

No caso da Trade Republic, por exemplo, os planos de investimento permitem fazer contribuições periódicas para ETF ou ações sem qualquer custo, exceto um euro no momento da abertura do plano. “Oferecemo-los com comissões baixas, pois entendemos que estas não devem ser uma barreira à rentabilidade dos investidores, especialmente daqueles que têm pouca capacidade de poupança”, destaca Kintxo Cortés, responsável para a Península Ibérica deste neobroker online alemão. 

Planos de poupança em destaque

Este tipo de plataformas está a ter um grande sucesso entre os clientes de retalho, especialmente na Alemanha, sendo os planos de poupança os produtos mais populares. São veículos que permitem aos investidores realizar contribuições periódicas em veículos de poupança a longo prazo e com carteiras cujo subjacente é principalmente constituído por ETF. A nível europeu, são o tipo de veículos onde estes neobrokers online têm os maiores patrimónios. 

Segundo cálculos da BlackRock, atualmente há seis milhões de planos de poupança. Em média, cada participante tem dois, pelo que as estimativas das gestoras apontam para três milhões de pessoas a investir através destes veículos. Os clientes de retalho podem abrir o seu plano com um custo muito baixo (algumas plataformas permitem fazê-lo por um euro). A gestora prevê um crescimento exponencial destes produtos. Mais concretamente, prevê que, em 2026, o número de planos de poupança aumente para os 25 milhões