Há um ditado que diz que quem tem um amigo, tem um tudo. Agora esse ditado transfere-se da esfera social e impacta cada vez mais a esfera económica. E tem um consequente efeito nos mercados e na construção das carteiras dos investidores. A razão é clara: o aumento das crises geopolíticas — há mais de 60 conflitos ativos em todo o mundo, o número mais elevado desde a Segunda Guerra Mundial — e a crescente relevância que os investidores institucionais atribuem a este fator na hora de desenhar as suas carteiras.
“Estamos imersos numa transição de um ciclo geopolítico global para outro caraterizado por turbulências e incerteza. Embora a preocupação dos investidores seja compreensível, mudanças estruturais na geopolítica como esta só ocorrem uma vez por século. E trazem consigo não apenas riscos, mas também oportunidades”, afirma Thomas Mucha, estratega geopolítico na Wellington Management.
A política ganha importância face à economia
Dois exemplos. Segundo um inquérito da UBS AM aos departamentos de investimento de 40 bancos centrais, a geopolítica tornou-se pela primeira vez a principal preocupação, superando os fatores económicos ou financeiros. Outro estudo, realizado pela Economist Impact com a colaboração da DWS e intitulado Friendvesting: the new architecture of investment in a fractured world, analisa como os investidores institucionais estão a repensar o risco num contexto de tensões geopolíticas crescentes. O relatório descreve também como estão a remodelar os fluxos de capital e o desenho das carteiras em resposta a esse cenário.
“Durante décadas, os investidores construíram carteiras globais ponderando fatores fundamentais como a classe de ativos, o setor e o desempenho do mercado. A geografia era importante, mas principalmente como fonte de diversificação (…)”, afirma o estudo. No entanto, defende que essa etapa em que a exposição geográfica num mundo globalizado não era prioritária chegou ao fim. “Nos últimos anos eclodiram guerras abertas, intensificaram-se as sanções e o congelamento de ativos. As restrições diretas ao investimento tornaram-se algo habitual. As guerras comerciais passaram a fazer parte da política quotidiana. Isto representa uma mudança tectónica que nem mesmo os investidores com horizontes de várias décadas podem descartar como meras semanas de turbulências”.
Não é por acaso que um paper publicado em abril pelo FMI e intitulado Enhancing Resilience amid Uncertainty conclui que, à medida que aumenta a distância geopolítica entre países, os vínculos financeiros enfraquecem. Concretamente, afirma que um aumento de um desvio padrão nessa distância — medida pelas divergências nas votações da Assembleia Geral da ONU — associa-se a uma redução de 40% no investimento em ações. Além disso, há uma queda de 60% no investimento em obrigações entre dois países.
É por isso que termos como friendshoring ou nearshoring — estratégias comerciais que implicam transferir a produção ou as cadeias de fornecimento para países considerados aliados políticos e económicos (friends) ou próximos (near) — estão a ganhar popularidade. São cada vez mais referidos tanto por economistas como por gestores de ativos na hora de compor carteiras.
O individualismo ganha terreno
“O near/friendshoring é uma proposta mais atrativa para os investidores”, defendem a partir do Bank of America. Apontam o caso da China, que perdeu quase oito pontos percentuais da sua quota nas importações dos EUA em favor do Vietname e, mais recentemente, do México. “Prevemos um aumento do nearshoring e do friendshoring à medida que as cadeias de fornecimento se realocam para fora da China em direção a mercados emergentes. As empresas estão a priorizar a gestão do risco geopolítico em detrimento da eficiência de custos”.
Está também a crescer o interesse por investir em geografias e setores cujo futuro dependa mais das suas capacidades internas do que externas. É o que se designa por autossuficiência. “A autossuficiência está a emergir como uma temática de investimento poderosa. […] A tecnologia, a transição energética, os cuidados de saúde e as plataformas de consumo massivo destacam-se como os principais beneficiários […]. Por conseguinte, os investidores devem centrar-se em áreas apoiadas pela liderança em políticas e tecnologia. A recuperação global a nível macroeconómico continua a ser complexa”, explica a equipa de investimentos da Axa IM.





