Fed volta a cortar as taxas em um quarto de ponto: as primeiras reações das gestoras

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Jerome Powell. Créditos: Cedida

Uma decisão esperada, mas um cenário futuro ainda incerto. A Reserva Federal cortou as taxas em 25 pontos base, como previsto, passando-as para 3,50–3,75%. Trata-se do terceiro corte consecutivo e do sexto desde o início do ciclo de redução do custo do dinheiro. A decisão foi tomada com nove votos a favor e três contra, evidenciando um Comité ainda dividido. As tabelas do Federal Open Market Committee indicam, além disso, um novo corte de taxas para 2026.

No entanto, a reintrodução do quantitative easing (QE), com compras de treasuries de 40 mil milhões de dólares por mês, “juntamente com uma série de medidas que mantiveram um corte para o próximo ano e para o seguinte, sugere que uma grande parte do FOMC continua a considerar que as taxas de juro podem cair ainda mais antes de atingirem um nível de referência neutro”, começa por afirmar Max Stainton, senior global macro strategist na Fidelity International.

Gordon Shannon, portfolio manager da TwentyFour Asset Management (boutique da Vontobel), considera o corte agora efetuado como agressivo, com o FOMC a sinalizar um nível mais elevado para a flexibilização da política monetária em 2026. “Os investidores estão a reduzir as expetativas quanto ao número de novos cortes de taxas que a Fed poderá implementar. Contudo, com o maior número de dissidentes desde 2019, mesmo antes da chegada do novo presidente, o Comité parece dividido”, explica.

Entre inflação, dados sobre o emprego e crescimento

Segundo Ray Sharma-Ong, Deputy Global Head of Multi-Asset Bespoke Solutions da Aberdeen Investments, a Fed encontra-se entre a espada e a parede, “com a inflação a manter-se elevada apesar do enfraquecimento do mercado de trabalho. Esta desconexão aumentou as divisões dentro do Comité, onde Miran pediu um corte de 50 pontos base, enquanto Goolsbee e Schmid votaram contra”.

De facto, o presidente Powell reiterou que, dada a atual tensão entre os objetivos de inflação e de desemprego, não existe um caminho isento de riscos para a política monetária. Mas, segundo Paolo Zanghieri, senior economist da Generali Investments, com o corte de dezembro, a Fed considera-se numa posição favorável para reagir a eventuais surpresas e pode permitir-se esperar por dados mais claros. Além disso, “aludiu várias vezes ao forte aumento da produtividade, que deverá continuar com a difusão do uso da IA: a consequência óbvia é que a economia pode suportar um nível mais elevado da taxa diretora”, afirma.

Daniel Siluk, portfolio manager and head of Global Short Duration and Liquidity da Janus Henderson Investors, sublinha que a mensagem da Fed é clara: “A era da flexibilização preventiva terminou”. De facto, os movimentos futuros dependerão dos dados, “passando decididamente para uma abordagem reunião a reunião. O presidente Powell reiterou esta posição na sua conferência de imprensa, sublinhando que o Comité considera o corte como um ajuste prudente, mais do que o início de um novo ciclo”, afirma.

Também o Summary of Economic Projections (SEP), acrescenta o profissional, confirma esta orientação restritiva. “As projeções de crescimento para 2026 e 2027 foram revistas ligeiramente em alta, a inflação está em queda para 2026 e o desemprego manteve-se estável no horizonte de médio prazo, um contexto que dificilmente favorece um afrouxamento agressivo. O nível mediano das taxas de política monetária permaneceu inalterado em 3,6% para 2025 e em 3,4% para 2026, sinalizando a possibilidade de apenas um corte por ano. As expetativas de mais longo prazo mantêm-se ancoradas em 3,0%”, prossegue.

Como referido, no que diz respeito a 2026, Zanghieri considera que a flexibilização poderá parar após um único corte, ainda que o calendário possa deslizar para a metade do ano. A aceleração da atividade prevista para o primeiro trimestre poderá atenuar as preocupações sobre o mercado de trabalho e dar à Fed mais tempo para avaliar o enquadramento macroeconómico. Antes da reunião, os mercados continuavam a descontar mais de dois cortes para o próximo ano.

Rumo a uma mudança de liderança

Segundo Siluk, o movimento da Fed demonstra a confiança do banco central na capacidade da economia arrefecer a inflação sem comprometer o crescimento, mantendo, ao mesmo tempo, margem para novos cortes. Com um Comité dividido e Powell a invocar paciência, a Fed entra em 2026 numa fase de espera, a aguardar a chegada do novo presidente.

Continuando a olhar para o futuro, na Fidelity International preveem que a trajetória das taxas de juro será cada vez mais determinada pelas especulações em torno da escolha de Trump para o novo presidente, mais do que pelos dados que forem sendo publicados. “No nosso cenário de base para 2026, prevemos que a administração Trump nomeie um presidente da Fed não tradicionalmente acomodatício, cujo principal objetivo seja baixar ainda mais as taxas de juro”, afirma. Uma dinâmica que poderá aumentar a instabilidade da curva de taxas forward quando o novo presidente tomar posse, em maio de 2026, com um novo ciclo de cortes que seria descontado pelos mercados se este cenário se concretizasse.