Fundos abrangentes ou mais puros: o caminho dos temáticos

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João Pina Gomes, Elisabete Pereira, Miguel Luzarraga. Créditos: Vitor Duarte

Nos últimos anos, e com especial relevância no pós início da pandemia de Covid-19, os fundos temáticos têm aparecido com muita frequência nos Tops de fundos mais subscritos. Cada vez mais, fazem também parte da oferta nacional mais estratégias com uma abordagem que procura capitalizar as megatendências que deverão moldar o nosso futuro. 

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Miguel Luzarraga

No entanto, para Miguel Luzarraga, responsável da AllianceBernstein em Portugal e Espanha, a “roda já estava inventada”. “Desde os anos 80 que já existiam fundos setoriais, mais específicos, para capturar ou acompanhar algumas tendências específicas de mercado”, diz. Desde então, o profissional viu a gestão de ativos encaminhar-se para produtos com uma abordagem mais ampla em termos de setores, com o objetivo de capitalizar as megatendências que se sabe que vão marcar a evolução das empresas e da sociedade. “E na nossa visão, para o fazer bem, temos que construir as carteiras a partir de um universo de investimento global, para não correr o risco de focar em nichos demasiado pequenos. Temos visto uma grande onda de lançamentos de produtos com estas características. Fundos muito específicos que têm beneficiado de um bull-market que dura há muito tempo. Mas perante uma correção, como a que aconteceu na pandemia, a diversificação é chave”, explica o profissional. 

“O futuro pertence a quem identifica as oportunidades antes que as mesmas se tornem óbvias”, Ted Levitt

É Elisabete Pereira que relembra a citação do economista germano-americano no contexto desta discussão sobre produtos temáticos e megatendências. A responsável da Área de Investimento e Proteção do Departamento de Desenvolvimento e Marketing do novobanco vê na capacidade para identificar as megatendências que vão moldar o futuro social e económico do planeta, o caminho para se encontrarem oportunidades de investimento muito interessantes. No entanto, a profissional depara-se com um desafio. “Tanto na consultoria para investimento, como na distribuição de fundos, trabalhamos com uma oferta selecionada - o banco nunca funcionou numa lógica de supermercado de fundos. Temos que confiar nesta capacidade das entidades gestoras, que nos providenciam os produtos, de conseguirem capturar as oportunidades que são proporcionadas por estas megatendências”. 

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Elisabete Pereira

O que fazem no novobanco, diz Elisabete Pereira, é focar em fundos mais abrangentes, de forma concordante com a opinião de Miguel Luzarraga. “Como lidamos com uma lista reduzida de produtos, em vez de fundos de biotecnologia, por exemplo, oferecemos fundos do setor da saúde. Em vez de fundos de telecomunicações, trabalhamos com fundos de tecnologia - mais ou menos agressivos. Em vez de fundos de energias renováveis, apostamos em estratégias mais abrangentes em termos ambientais. É isto que faz sentido no nosso modelo de negócio, porque não nos estamos a substituir às entidades gestoras no papel de capturar as tendências”, explica.

Onde encaixam os fundos temáticos?

João Pina Gomes, product manager do ABANCA Portugal, aponta outra questão que se levanta na alocação a fundos temáticos. “Para quem constrói portefólios, como é o nosso caso, o maior desafio que se coloca é em que compartimento da carteira encaixar estas estratégias”. O profissional levanta algumas questões. Os fundos de biotecnologia, por exemplo, deverão ser colocados num compartimento de tecnologia ou num de saúde? Temas como a urbanização ou economia circular, onde deverão ser alocados? “Claro que isto depende de gestor para gestor: alguns poderão alocar tudo a um compartimento de ações, mas outros podem olhar para a carteira de uma forma mais compartimentada. Mas é, definitivamente, um desafio. Em que compartimento o coloco e que peso lhe atribuo.”

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João Pina Gomes

Para João Pina Gomes, esta questão é especialmente relevante pelas dificuldades que levanta na relação do investidor com o conceito do fundo e o risco que espera assumir. “Imaginemos um cliente que tem exposição a um fundo focado na megatendência do envelhecimento da população. Tipicamente, um fundo com este propósito está exposto ao mercado acionista e é importante que isso fique bem claro no entendimento do cliente. É importante que perceba que as oscilações de curto-prazo não invalidam a tendência de longo-prazo que se quer capturar”, diz. Não obstante, o profissional acrescenta que, pelo seu foco em tendências de longo-prazo e filosofia fácil de perceber pelos investidores os “fundos temáticos ajudam, em média, a aumentar o período de investimento”. 

Miguel Luzarraga complementa esta ideia. “Quanto falamos com o cliente final, frequentemente temos que regressar ao início e deixar claro que falamos de fundos de ações globais com enfoque numa temática específica”. Para o profissional da AllianceBernstein há que deixar bem claro o que isso representa em termos da volatilidade que se assume.