Mais táticos, mais obrigações e alterações nos alternativos: assim se está a adaptar a forma de investir dos family offices no atual contexto

Marc Pilgrem. Créditos: Cedida (BlackRock)

Os últimos 12 meses têm sido desafiantes para o investidor e os family offices querem estar melhor preparados para o novo contexto de mercado. Segundo revela o último Inquérito Global a Family Offices bienal realizado pela BlackRock, quase metade dos family offices pretendem fazer mais ajustes táticos nas alocações das suas carteiras em resposta ao atual ambiente de mercado. Sentem a necessidade de serem mais ágeis e oportunistas na procura por novas ideias e oportunidades de alfa. Isto leva-os a rever as suas carteiras ou posições com maior frequência (76%) e a procurar cada vez mais o contributo de parceiros externos (64%).

Como Marc Pilgrem, responsável de Family Offices, Charities e Investment Trusts da BlackRock EMEA salienta, é um comportamento curioso de ver, tendo em conta que os family offices são um segmento de investidores de muito longo prazo. “Normalmente, têm um plano de investimento muito bem definido”, afirma. E essa postura mais oportunista dos family office tem várias implicações para a indústria. 

Por exemplo, na escolha de produtos. Desde janeiro que a utilização de ETF aumentou. “Os ETF sempre foram um produto nas carteiras dos family offices, mas veem-nos claramente como uma ferramenta para entrar e sair com agilidade de um mercado”, afirma Marc Pilgrem. Ou seja, questionam-se muito sobre o tipo de produtos com que devem aceder aos mercados públicos.

O ano do crédito privado

Também influencia na procura por determinados ativos. Concretamente, a BlackRock deteta mais interesse e fluxos em monetários. “Afinal, um monetário com crédito investiment grade pode dar 5-6% dependendo da divisa. Mas se um family office estiver à procura de mais rendimento, irá diretamente para o crédito privado em vez de para o high yield”, afirma. É uma questão de gestão de riscos. Os family offices que investem em crédito privado têm uma maior visibilidade e controlo das operações subjacentes em que estão investidos do que quando investem em fundos de high yield, onde o número de operações é maior e dificulta o controlo repartido do risco. Além disso, o crédito privado permite-lhes beneficiar de um prémio de iliquidez e da possibilidade de desenvolver uma relação de confiança com a equipa gestora.

“O crédito privado é o tema de investimento de 2023-2024”, afirma Marc Pilgrem. É a classe de ativos em que estão a ter mais conversas com os family offices. Especificamente no segmento de senior secured direct lending, em euros ou dólares.

À procura de produtos ágeis

Os family offices estão a tentar adaptar-se ao que consideram ser uma mudança no regime do mercado. E Marc Pilgrem vê isto em três pontos. Em primeiro lugar, procuram produtos ágeis em todas as classes de ativos. Inclusive em obrigações. De facto, há empresas que, numa questão de meses, passaram de ter 5% da sua carteira em obrigações para 20%.

O segundo ponto é uma mudança de foco nos mercados privados. “Os family offices também têm sido muito amigos da estratégia 60-40, não a tradicional, mas a 60-40 mercados públicos e mercados privados”, afirma o especialista. Agora, a forma de olhar para os mercados cotados está a mudar entre os family offices. Procuram descorrelação.

“Em private equity, os investidores ainda estão à espera da correlação nas valorizações a que assistimos nos mercados cotados”, explica Marc Pilgrem. Assim, o mercado privado primário está em pausa porque os family offices sentem que as oportunidades no mercado secundário vão chegar.

Assim, quando o especialista diz que vê interesse por estratégias de descorrelação, está a falar de infraestruturas. É um ativo que, historicamente, tem tido uma correlação muito baixa com os ativos tradicionais”, afirma. Mais de 40% dos inquiridos pela BlackRock estão a considerar aumentar o seu peso neste segmento.

O facto de ser um mercado que permite o acesso e posicionamento no tema da transição energética também é favorável para as infraestruturas. Principalmente, as novas gerações, deteta Marc Pilgrem, veem uma enorme oportunidade. “Estão conscientes de que é preciso fazer uma transição e de todo o investimento necessário para a concretizar”, afirma.

Custos são a prioridade

E, por último, as relações comerciais também estão a evoluir. Os family offices estão a dar cada vez mais prioridade à eficiência operacional. “Todos estão sob a mesma pressão de custos crescentes e, além disso, num mercado cada vez mais competitivo”, reconhec Marc Pilgrem. Como bem recorda, um processo de due diligence é um processo complexo e dispendioso. De facto, é o serviço mais subcontratado, como vemos no gráfico partilhado pela BlackRock, seguido da gestão de riscos. 

Além disso, existem family offices que sabem que muitas vezes não dispõem das ferramentas e equipas necessárias. “Se pretendem fazer um investimento em dívida privada na Ásia, precisam de entender os concorrentes locais e as estruturas necessárias para se protegerem dos riscos”, explica.