COLABORAÇÃO de Carlos Pinto, gestor sénior de Investimentos, da Optimize Investment Partners.
O ano iniciou com algum otimismo com os mercados a incorporarem a agenda pró-crescimento da nova administração americana, mesmo suportada por um agravamento significativo do endividamento. Acontece que o protecionismo agressivo dos EUA e as respostas retaliatórias dos seus parceiros comerciais acabaram por abalar e inverter por completo as expetativas para o crescimento global. Ainda o choque militar no médio oriente e na Ucrânia agravaram os custos energéticos e logísticos, pressionando a inflação, o crescimento económico e a confiança ao consumo e investimento dos agentes económicos. Já a Europa assumiu uma agenda mais reformista que visa estimular a competitividade económica, reforçar a defesa e segurança da região, capacitar de maior autonomia energética e acelerar a transformação digital para fazer face ao menor apoio externo sobretudo dos EUA.
Neste contexto, as ações europeias acabaram por apresentar performances muito positivas a incorporar os vários estímulos anunciados para a agenda estratégica dos próximos cinco anos. Já nos EUA, apresentaram retornos negativos, sobretudo pela depreciação do dólar face ao euro. Nas obrigações, também as emissões europeias apresentaram retornos positivos a beneficiar de dois cortes implementados pelo BCE, já a incerteza criada pela agenda política mais austera e imprevisível nos EUA levou a uma fuga dos fluxos em dólares para outras moedas, sobretudo para o euro, penalizando bastante o desempenho dos ativos expostos à moeda americana.
Revés à credibilidade dos EUA
A ameaça de tarifas alfandegárias aos bens importados para os EUA, que vinha da campanha eleitoral, concretizou-se e acabou por ser mais disruptiva e alargada do que era aguardada. Num evento proclamado por D. Trump como o Liberation Day, o dia que, segundo o próprio, liberta os EUA dos bens estrangeiros numa tentativa de devolver à economia americana os postos de trabalho e fábricas espalhadas por todo o mundo, o presidente americano conseguiu agitar toda a dinâmica do comércio externo, criando um pico de incerteza à economia global. Esta disrupção impactou todos os índices de confiança, sendo um enorme revês à credibilidade da economia americana, considerada (até então) a mais previsível e pró-business.
A juntar a isto, a agência de rating Moody's desceu em um nível para o 2º patamar a qualidade de crédito tendo até então, sido a única agência das três principais que ainda ostentava o nível mais elevado de qualidade creditícia. Este downgrade reflete o maior risco, em resultado do maior endividamento associada a taxas de juro mais elevadas, uma economia que está em deficit consecutivo nos últimos 23 anos. Esta situação poderá agravar-se, tendo em conta o aumento da dívida perante o último pacote de estímulos fiscais aprovado pela administração americana, perdendo assim parte do seu perfil de ativo sem risco, a refletir a própria ameaça ao comércio liberalizado nos EUA. Neste contexto, de inflação muito acima dos 2%, está a levar a Fed a adotar uma postura mais prudente, mesmo perante a forte pressão de D. Trump e dos vários sinais da economia estar a contrair, o que deverá obrigar o organismo a optar no mínimo em dois cortes ao longo do segundo semestre para os 3,75%-4%.
Desce o custo de financiamento na Europa
Quem está a reagir a estas políticas, diria mais hostis, é a Europa ao assumir prontamente uma agenda reformista para capacitar o continente em recuperar a perda de competitividade dos últimos anos/décadas sobretudo em segmentos essenciais. Portanto, trata-se de 800 mil milhões de euros até 2030 para reforçar a capacidade militar do continente, 300 mil milhões até 2027 para aumentar a produção e eficiência energética, 43 mil milhões de euros até 2030 para garantir o abastecimento de semicondutores, sendo essencial para a digitalização económica. Somando aos 500 mil milhões de euros até 2035 na Alemanha para reformar o seu parque de infraestruturas, em termos agregados estamos perante 1.6 biliões de euros, montante que corresponde a 10% do PIB da zona euro e 1.5% do PIB Mundial. Estima-se que por si só deverão contribuir para o crescimento do PIB da zona euro entre 0,4% e 1,2% gradualmente até 2030. Mais recentemente na cimeira da NATO, a generalidade dos Estados membros assumiram um compromisso de elevar as despesas para a Defesa gradualmente até 5% do PIB de cada país até 2035, dos quais 3.5% diretamente para equipamentos militares e 1.5% em infraestruturas que também poderão servir os equipamentos militares.
Neste período, o BCE desceu em quatro níveis as taxas de juro, dos 3% até aos atuais 2%, com C. Lagarde assumir que o ciclo de cortes esteja praticamente concluído. Recentemente indicou que a meta da inflação dos 2% está ao alcance, projetando que a mesma termine o ano nos 2% e em 2026 abrande para os 1,6%. Uma economia que apresenta uma inflação próxima do objetivo, que permite baixar o custo de financiamento que vai ser essencial para os investimentos em agenda na região.
O Japão está a transitar de décadas de estagnação, para um ambiente mais dinâmico com a inflação estimada à volta de 2.5% para o final do ano. Após anos de juros negativos, o Banco do Japão deverá continuar a subir a taxa de juro em mais um nível para terminar o ano nos 0.75%. Esta dinâmica inflacionista está a estimular o crescimento salarial que deverá incrementar em média 3.5% a 5%, com consequência direta na melhoria das dinâmicas do consumo interno. Já o crescimento real para este ano deverá baixar para próximo de zero, pressionado pela queda das exportações, em resultado das tarifas americanas. As preocupações demográficas não são de agora, mas o envelhecimento da população mantem-se persistente levando à escassez da mão de obra, portanto, para preservar a sua competitividade, o país tem intensificado o investimento em soluções IA, automação e robótica.
O triunfo da Índia?
O crescimento da China tem sido estável neste primeiro semestre do ano, apesar de permanecer abaixo da sua meta dos 5%. Apesar dos ataques tarifários entre EUA e China, as exportações revelam-se resilientes, graças à acumulação de stock por parte dos vários agentes económicos em movimentos de antecipação ao início das tarifas. Entretanto, a recente trégua tarifária de 90 dias deverá originar uma segunda vaga de exportações, contudo esta incerteza em torno das políticas comerciais, deverá representar um risco para o modelo de comércio externo da China. Até ao final do ano, o crescimento deverá perder gás, devido à perda de confiança do consumo interno, pela bolha imobiliária que continua a pressionar o preço das casas e pela incerteza do comércio externo. Neste contexto, as pressões deflacionistas deverão continuar até ao final do ano, portanto a economia ainda carece de mais estímulos para devolver a confiança ao investimento.
A Índia deverá ultrapassar o Japão e a Alemanha nos próximos dois anos e tornar-se na terceira maior economia do mundo. Apesar do seu recente abrandamento, continua a crescer acima dos 6%, muito alicerçada no forte investimento público a acompanhar a crescente urbanização, investimento estrangeiro e mão de obra rejuvenescida e instruída. Ao longo deste semestre, a inflação abrandou dos 5,8% para os 2,8%, estando já abaixo dos 4%, a meta das autoridades monetárias pelo que o RBI, o Banco Central da India, aproveitou este espaço para descer ao longo deste período 1% a taxa de juro para os 5.5%, estímulos muito relevantes para suportar o investimento privado e consumo interno e colocar o crescimento económico novamente nos 6,5% para os próximos anos.
A preferência por empresas líderes
Em termos genéricos a nossa preferência vai naturalmente para as empresas líderes, tanto globais como nos seus nichos, com balanços robustos e elevadas barreiras à entrada. Em termos geográficos, preferimos empresas com maior exposição a regiões de maior crescimento económico.
Nos EUA, com ponderação mais reduzida, temos preferência nos líderes globais e com menor peso à economia doméstica. A imprevisibilidade política está a impactar a confiança ao investimento nesta economia, com muitos projetos de expansão a serem adiados. Em sentido inverso, mais sobreponderados na Europa, de preferência em empresas que beneficiem do enorme pacote de investimento na região, nomeadamente, empresas que permitam acelerar a reindustrialização, desenvolvam o parque de infraestruturas, que melhorem a eficiência e produção energética e ligadas aos setores chaves da digitalização e automação como são as empresas ligadas aos semicondutores.
Sectorialmente, temos identificadas várias oportunidades no segmento tecnológico, nomeadamente na cadeia de abastecimento para o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial generativa. Como consequência de uma economia mais digital, a procura por soluções de cibesegurança deverá crescer 10% nos próximos anos, sendo outro segmento que estamos sobreponderados. No setor da saúde, temos preferência pelo segmento de tratamento de obesidade, apesar de enfrentarem alguns temas regulatórios, estima-se que 12% da população mundial esteja com obesidade, cujo mercado para o seu tratamento irá continuar a crescer exponencialmente nos próximos anos.
Nos mercados emergentes, mantemos a nossa ponderação nas ações indianas, uma economia em forte crescimento muito suportada pela sua inovação tecnológica, população jovem, investimento em infraestruturas e energia renovável.
Dívida financeira europeia a beneficiar
Nas obrigações temos preferência pelas europeias, que estão a beneficiar das descidas das taxas de juro do BCE. Nas emissões em dólares, com a possibilidade de a Fed cortar 2 vezes a taxa de juro até ao final do ano, deverá beneficiar estes ativos na sua moeda. Acontece que o dólar e as US treasuries, perderam parte do seu estatuto de ativos de refúgio, com a instabilidade e agravamento do peso da dívida. Esta dinâmica está a impulsionar a saída dos fluxos monetários dos EUA para outras regiões, levando à depreciação do dólar penalizando a generalidade dos ativos mais expostas a esta moeda.
Mais especificamente, mantemos a preferência dos últimos anos pela dívida do setor financeiro europeu, cujos emitentes estejam qualificados como Investment Grade, sobretudo na componente subordinada. O dinamismo da atividade económica na região para os próximos anos deverá continuar a suportar o setor, mesmo considerando a descida dos juros e da margem financeira. Adicionalmente, também em países emergentes que possam sair beneficiados de novos acordos comerciais bilaterais com os EUA, ou seja, beneficiando do movimento friendshoring.

