Gonçalo Câmara Pestana (Banco BPI): “Um dos temas onde vemos oportunidades é nas empresas de pequena e média capitalização norte-americanas”

Gonçalo Câmara Pestana. (Banco BPI)
Gonçalo Câmara Pestana. Créditos: Vítor Duarte

COLABORAÇÃO de Gonçalo Câmara Pestana, responsável da equipa de Aconselhamento Financeiro do Banco BPI.

Na zona euro, os indicadores mais recentes sugerem que a recuperação continua, uma vez que o setor industrial pode já ter ultrapassado o seu pior momento e o setor dos serviços apresenta uma recuperação ténue. Nos EUA, a economia deverá permanecer sólida, embora com sinais de normalização do mercado de trabalho e com a inflação a avançar gradualmente para os 2%. Para a China, será de esperar um crescimento um pouco abaixo dos 5%, com a componente exportadora relativamente robusta ajudando a compensar a fraca procura interna do país.

Spreads de crédito deverão permanecer estáveis

No que respeita à classe obrigacionista, acreditamos na continuação do cenário de uma descida gradual da inflação, que deverá levar a uma redução das yields nas várias maturidades, em especial nos EUA, perspetivando uma visão positiva para a classe. Na dívida governamental vemos valor na componente core (EUA e Alemanha), dado o seu caráter diversificador e o seu estatuto de ativo de refúgio, conferindo uma maior segurança aos portefólios, um comportamento que se evidenciou no recente momento de agravamento do risco político em França. Em relação aos spreads de crédito, apesar de já terem estreitado nos últimos dois anos, consideramos que, dado o enquadramento macroeconómico benigno, deverão permanecer estáveis, oferecendo, por isso, um retorno interessante para as obrigações corporate, quer as de melhor qualidade creditícia (investment grade), quer as de menor qualidade (high yield).

Perspetivas para o comportamento das empresas, commodities e dos mercados emergentes

Na classe acionista, nos EUA, poderá observar-se um melhor comportamento relativo da generalidade das empresas, em especial as de menor capitalização face às grandes tecnológicas depois da forte overperformance destas nos últimos 18 meses. Na Europa, será importante, para além da atuação do BCE, monitorizar a evolução da situação política em França, que poderá ditar o comportamento dos mercados periféricos e do mercado francês face aos restantes índices europeus. Dada a incerteza em redor destes dois temas, consideramos que faz sentido ter uma alocação equilibrada entre empresas, setores e estilos de investimentos (crescimento e valor). Em relação aos mercados emergentes, que acabaram por ter um bom desempenho no primeiro semestre, acreditamos na continuação de um comportamento positivo, tendo por base a expetativa de melhoria de sentimento em relação à atividade económica na China e ao início do ciclo de descida de taxas nos EUA.

Com as alterações de política monetária por parte do BCE e da Fed que se esperam para a segunda metade do ano, perspetiva-se um comportamento positivo das commodities que beneficiarão de melhores expetativas de crescimento futuro. No que diz respeito ao ouro poderá continuar a beneficiar do ambiente de instabilidade geopolítica, do interesse comprador por parte dos bancos centrais e da descida das taxas de juro.

Eleições presidenciais nos EUA deverão trazer maior volatilidade

Como principais riscos para o próximo trimestre, destacamos, para além da incerteza em torno da evolução dos conflitos militares existentes, o tema político. Apesar de se realizarem apenas em novembro, o aproximar das eleições norte-americanas, com a possível eleição de Donald Trump, e eventuais implicações ao nível do protecionismo comercial e do apoio militar à Ucrânia, deverá trazer maior volatilidade ao mercado. Para além disso, será importante monitorizar a evolução da inflação, fator decisivo para permitir aos bancos centrais a adoção de uma política monetária menos restritiva e, com isso, ajudar a suportar o bom comportamento dos mercados financeiros.

Foco nas PME norte-americanas e nos setores tecnológico, da saúde e do ambiente a longo prazo

Para a segunda metade do ano, acreditamos que, com sinais mais evidentes da proximidade de cortes de taxas por parte da Fed, possa ocorrer, a nível de mercados acionistas, uma maior homogeneização de performances entre as várias geografias, setores e níveis de capitalização. Nesse sentido, um dos temas onde vemos oportunidades é nas empresas de pequena e média capitalização norte-americanas. Outro tema tem a ver com as marcas premium, que têm sido, nos últimos meses, afetadas pela situação ainda frágil da procura interna na China, mas cuja atratividade permanece. Para além disso, continuamos a privilegiar temas de investimento de longo prazo ligados ao setor tecnológico, à saúde e ao ambiente.