Guilherme Corga e João Ferraz (TFT): "A fragmentação geopolítica continua a ser um dos principais focos de instabilidade para 2026"

guilherme corga e joao ferraz
Guilherme Corga e João Ferraz. Créditos: Cedida

COLABORAÇÃO de Guilherme Corga, diretor comercial e businness development, e  João Ferraz, equity research analyst, da Today For Tomorrow.

No Outlook 2026 da Today for Tomorrow SGOIC delineamos a nossa leitura para o cenário macroeconómico do próximo ano. Identificamos as oportunidades que merecem acompanhamento próximo, mapeamos os riscos que poderão condicionar a evolução das economias e dos mercados financeiros e apresentamos a recomendação de fundo que consideramos mais adequada para navegar este contexto.

Oportunidades em 2026

Nos mercados de ações, 2026 pode ser um ano promissor para o setor bancário nos Estados Unidos e para as empresas no setor de robôs humanoides. Nos ativos alternativos, a bitcoin é uma escolha ponderada apesar dos riscos de curto prazo.

No setor bancário dos Estados Unidos, à medida que a Reserva Federal corta as taxas de juros, espera-se que a curva de rendimentos tenha uma inclinação cada vez mais positiva, o que representa um fator importante para os lucros no setor bancário. 

No setor dos robôs humanoides, as receitas ainda representam um volume reduzido em termos absolutos; no entanto, trata-se de um segmento com uma elevada taxa de crescimento. Além disso, este setor poderá desempenhar um papel importante na mitigação da escassez de mão de obra em várias economias. Com a produção em massa de robôs, as empresas que fabricam componentes essenciais - como articulações, motores e sensores - deverão ser fortemente beneficiadas. Estas empresas já apresentam lucros provenientes de outros segmentos da robótica, possuem experiência tecnológica relevante e, além disso, as suas ações ainda não estão muito caras.

No campo dos investimentos alternativos, a bitcoin pode ser um ativo bastante interessante para o ano de 2026. Se a política monetária nos EUA e a política fiscal em vários países for expansionista, haverá mais liquidez e atividade económica que poderá levar novamente a uma subida da inflação. Além disso, atualmente a Bitcoin transaciona perto do preço de custo.

No que diz respeito aos preços, diversos estudos indicam que as commodities tendem a estar ancoradas ao seu custo de produção. Enquanto que a bitcoin transacionou entre os 90.000$ e os 100.000$ durante o mês de novembro, com a JPMorgan a estimar um custo de produção em torno dos 90.000$, o ouro tem sido transacionado desde outubro acima dos 4.000$. No entanto, o custo total de produção do ouro (all-in sustaining costs) das três maiores produtoras de ouro situa-se entre os 1.400$ e os 1.600$ em 2025, o que significa que o preço de mercado do ouro está próximo de três vezes o seu custo.

Naturalmente, a volatilidade é um fator essencial na avaliação de um ativo como a bitcoin, mas, ainda assim, o preço-alvo ajustado ao risco estimado pela JPMorgan situa-se em torno dos 170.000$. Caso haja uma subida da inflação o ouro irá beneficiar bastante, mas a grande probabilidade do retorno da bitcoin ser superior ao retorno do ouro. Um risco relevante e específico para a Bitcoin que merece acompanhamento é a possibilidade de a empresa MicroStrategy — um dos seus maiores detentores — ter de vender uma parte significativa da sua posição para cumprir as suas obrigações financeiras.

Principais riscos

A elevada capitalização e concentração das grandes empresas tecnológicas no principal mercado acionista do mundo torna o setor particularmente vulnerável a correções. Como operam no mesmo segmento, apresentam correlações muito altas: qualquer evento que penalize uma tende a impactar de forma semelhante as restantes.

Neste contexto, os resultados trimestrais serão decisivos. Surpresas negativas, mesmo pequenas, podem desencadear uma rápida mudança de sentimento e provocar uma correção sincronizada.

O risco é ampliado pela forte presença de investidores de retalho, mais sensíveis a notícias negativas consecutivas e com menor capacidade técnica para distinguir ruído de informação relevante. Isso pode acelerar movimentos de venda e aumentar a volatilidade.

A fragmentação geopolítica continua a ser um dos principais focos de instabilidade para 2026. Tensões persistentes em regiões estratégicas, disputas comerciais entre grandes potências e riscos sobre cadeias de fornecimento aumentam a probabilidade de choques de oferta e episódios de inflação importada. Basta um evento localizado - num estreito marítimo, num fornecedor crítico de semicondutores ou num produtor relevante de energia - para gerar impacto global imediato. Passadas décadas, a Europa voltou a investir a grande escala em defesa, o que revela uma preocupação real face à possibilidade iminente de uma guerra com a Rússia. Para já esse movimento parece ser preventivo, mas não deixa de ser um risco a monitorizar. 

Outro risco a monitorizar em 2026 é a evolução da inflação. Embora os bancos centrais tenham conseguido reduzir as taxas de juro ao longo de 2025, aliviando a desaceleração económica causada pelo ciclo restritivo iniciado em finais de 2021, a inflação continua controlada, mas ainda acima dos níveis pré-pandemia. Até agora, políticas mais protecionistas e tensões comerciais não produziram um impacto inflacionista estrutural, mas será preciso esperar por 2026 para avaliar o seu verdadeiro efeito. Se estes fatores começarem a refletir-se de forma persistente nos preços, os bancos centrais poderão ser forçados a interromper, ou mesmo reverter, o ciclo de cortes. Nesse cenário, o mercado de renda fixa, particularmente na parte longa da curva, seria o mais penalizado.

Sugestão de um fundo de investimento para 2026

Para 2026 o fundo que sugerimos é o VTLS Global Trends OIAVM, da Today for Tomorrow. Trata-se de uma estratégia de ETF’s temáticos, com exposição a várias classes de ativos, uma rotação elevada, apoiada por um algoritmo que procura identificar o flavour of the moth. Nesse sentido a gestão é bastante ativa e flexível, algo que consideramos importante no próximo ano.

Para 2026, vamos apostar numa recuperação da economia global, sustentada por uma orientação mais expansionista da política orçamental na Europa, nos Estados Unidos e na China. Esse enquadramento deverá favorecer os setores cíclicos atualmente deprimidos, como a indústria química e os serviços comerciais, entre outros, bem como o segmento das matérias-primas (com a possível exceção do petróleo) e os mercados emergentes. Em relação à inteligência artificial, apesar de a forte tendência de investimento em capacidade dever manter-se, é expectável que esse ritmo comece a abrandar em algum momento de 2026, período em que se prevê uma transição gradual do investimento para a fase de implementação.