Mário Carvalho e Tiago Gaspar (Banco Carregosa): "O segundo semestre de 2025 exige uma abordagem prudente, mas não paralisada"

mário carvalho e tiago gaspar
Mário Carvalho Fernandes e Tiago Gaspar. Créditos: Cedida (Banco Carregosa)

COLABORAÇÃO de Mário Carvalho Fernandes, CIO, e Tiago Gaspar, responsável pela Análise e Seleção de Fundos, do Banco Carregosa.

Esperamos uma economia ainda em expansão, embora com maior assimetria entre setores, e num ritmo de crescimento mais moderado do que o esperado no início de 2025. As políticas fiscais expansionistas da nova administração estão a manter a procura interna elevada, mas a incerteza em torno das tarifas e da política externa continua a pesar sobre o investimento empresarial. A inflação poderá manter-se acima da meta da Fed, o que poderá adiar cortes de taxas adicionais, mas o arrefecimento da economia deverá permitir cortes ainda este ano. O défice comercial dos EUA é o espelho dos superavits da Europa, China e Japão, pelo que uma contração da procura norte-americana levará a um arrefecimento das exportações desses blocos económicos.

Economia europeia em ciclo de recuperação

A economia europeia mantém-se num ciclo de recuperação moderada, beneficiando de estímulos fiscais pontuais e da queda da inflação. No entanto, os efeitos da desglobalização e as fricções regulatórias poderão continuar a penalizar a competitividade externa. Por outro lado, os benefícios da política fiscal mais expansionista apenas deverão sentir-se em 2026. O BCE deverá manter uma postura cautelosa, privilegiando a estabilidade financeira, apesar de já se encontrar num nível de taxa de juro neutral, poderá ainda realizar um novo corte de forma a estimular a economia e travar as pressões deflacionistas causadas pela forte valorização da moeda única.

Panorama económico asiático: China enfrenta desafios estruturais, Japão mostra sinais de vitalidade

A economia chinesa enfrenta ainda desafios estruturais, como o envelhecimento demográfico, mas atualmente beneficia de um forte apoio estatal e de estímulos monetários significativos. A reorientação estratégica para setores tecnológicos e industriais avançados, aliados ao reforço do mercado interno, tem sido fundamental para sustentar o dinamismo económico e mitigar impactos de eventuais tensões externas. As recentes negociações comerciais com os EUA indicam uma transição de confronto para maior cooperação, reduzindo o risco imediato de restrições adicionais e permitindo manter um ambiente favorável ao investimento. Os resultados das empresas que transacionam no mercado acionista chinês têm apresentado um crescimento salutar, sobretudo nos setores estratégicos ligados à tecnologia, saúde, energia verde e robótica, apoiados por políticas públicas direcionadas e por uma recuperação do dinamismo empresarial, mas o desinteresse dos investidores internacionais neste mercado penalizado pelo elevado risco geopolítico, tem-se materializado em múltiplos de avaliação crescentemente atrativos.

A economia japonesa mostra sinais de vitalidade, com uma política monetária ainda acomodatícia e uma recuperação gradual do consumo. A saída da política de taxas negativas está a ser gerida de forma cuidadosa, mas será crucial monitorizar o impacto sobre o iene e o setor exportador. A reflação da economia interna pode estimular o consumo e o investimento, embora a pressão demográfica continue a ser um travão limitador desse potencial ciclo virtuoso.

Os mercados emergentes

Os emergentes apresentam uma realidade muito heterogénea. No entanto a redução do movimento de globalização, os crescentes prémios de risco exigidos pelos investidores para exposição a mercados mais vulneráveis à incerteza geopolítica penalizam estas economias. Por outro lado, a descida do dólar americano favorece estes mercados, tornando os fluxos de capital mais propensos para estas geografias. O posicionamento relativamente neutral da Índia e Brasil no tabuleiro de xadrez da política internacional tem conferido suporte a estas economias, que mantêm problemas estruturais relevantes por endereçar.

As classes de ativos melhor posicionadas para enfrentar o semestre

  • Obrigações: obrigações de curto prazo com spreads de crédito mais elevados, nomeadamente no segmento high yield, oferecem um perfil risco-retorno atrativo. A perspetiva de regresso a uma nova fase de repressão financeira, com juros reais negativos, justifica a procura por ativos que preservem o poder de compra.
  • Ações: preferência por empresas com negócios e balanços de elevada qualidade, com poder de fixação de preços e margens estáveis. A seleção geográfica será cada vez mais importante, dada a divergência de políticas e ciclos, mas e economia norte americana deverá continuar a mostrar maior resiliência do que os restantes blocos.
  • Imobiliário: o setor encontra-se em transição, com dinâmicas distintas entre geografias e subsetores. O imobiliário logístico e residencial de rendimento ajustado à inflação continua a ter valor. Já os segmentos mais dependentes de financiamento ou de escritórios tradicionais mantêm desafios. O real estate continua a enfrentar desafios nomeadamente nas economias em que o financiamento se encontra indexado a taxas de juro fixas de longo prazo, que devem continuar pressionadas em alta, apesar da redução das taxas nos prazos mais curtos.
  • Commodities: o petróleo deverá manter alguma estabilidade no trimestre. As commodities agrícolas devem continuar a refletir as flutuações de produção causadas pelas alterações climáticas podendo ser uma ameaça à estabilidade do nível geral de preços da economia global. Os metais industriais podem beneficiar de estímulos em países emergentes e da transição energética, embora o baixo ritmo de crescimento da economia global não contribua para sustentar um ciclo de valorização acentuado das matérias primais mais cíclicas.
  • Liquidez: ainda que a liquidez comece a ter uma remuneração real negativa na zona euro, esta componente das carteiras de investimento continua a ser relevante. Manter uma almofada de liquidez permite reagir a choques de mercado, aproveitar oportunidades e ainda amortecer a volatilidade do mercado, que se espera permaneça elevada.

Riscos e oportunidades a monitorizar

O segundo semestre de 2025 será inevitavelmente moldado por um conjunto de forças antagónicas que mantêm a economia global num equilíbrio precário. A combinação entre crescimento económico mais frágil, inflação moderada, mas com riscos de upside, e uma geopolítica volátil, cria um contexto onde tanto riscos como oportunidades emergem lado a lado, muitas vezes do mesmo fenómeno.

Começando pelas oportunidades, há sinais claros de que a inovação tecnológica continua a liderar o crescimento nos mercados desenvolvidos, com os Estados Unidos à cabeça. A inteligência artificial, a automação e a computação em nuvem continuam a transformar setores inteiros, a promover ganhos de produtividade e a atrair fluxos significativos de capital. Ações tecnológicas de ponta permanecem uma aposta dominante, embora esta unanimidade por si só represente também um risco, face a avaliações cada vez mais exigentes.

No plano monetário, a possibilidade do regresso de uma política de repressão financeira — juros reais negativos como solução ordeira para o excesso de endividamento global — abre espaço para a valorização de determinadas obrigações. Destacam-se as obrigações corporativas high yield de curto prazo, que beneficiam de menor duração, rollover mais frequente e spreads que permitem, em muitos casos, preservar yield real positiva. 

A evolução da inflação será determinante. Num primeiro cenário, mais provável, em que esta se mantenha relativamente ancorada, as ações de crescimento deverão beneficiar da descida das taxas de desconto. Mas, caso se instale a perceção de inflação elevada por mais tempo, o protagonismo tenderá a mudar para os setores de energia, matérias-primas e segmentos mais value do mercado.

No entanto, os riscos são igualmente numerosos e interligados. A geopolítica global continua a ser o principal foco de instabilidade. A tensão crescente entre os EUA, Europa e China, a guerra prolongada na Ucrânia e a instabilidade no Médio Oriente — com destaque para o Estreito de Ormuz — ameaçam a segurança energética e as cadeias de abastecimento globais. Acresce o comportamento errático e intervencionista da atual administração americana, que já provocou fricções com aliados tradicionais e uma potencial retração dos EUA enquanto potência estabilizadora global.

Internamente, os EUA enfrentam também o risco de uma redefinição política da Reserva Federal, com a possível nomeação de um presidente da Fed mais politicamente alinhado com a administração, predisposto a cortes de taxas prematuros — o que poderá comprometer o controlo da inflação e gerar instabilidade cambial. A inflação, apesar de alguma moderação, continua em níveis desconfortavelmente acima da meta, com os preços a oscilarem em torno dos 3% — tornando o risco de um novo ciclo inflacionista estrutural mais plausível, especialmente se se combinar com choques externos ou catástrofes climáticas.

Os eventos climáticos extremos são, aliás, um risco crescente. A sua frequência e intensidade têm vindo a aumentar, com impacto direto sobre setores como seguros, agricultura, logística e energia. A necessidade de adaptação climática poderá pressionar orçamentos públicos e empresariais, ao mesmo tempo que eleva os custos de produção em setores chave.

Por fim, não podemos ignorar o risco de uma correção nas ações tecnológicas, dadas as avaliações exigentes e a concentração extrema nas chamadas Magnificent 7. Embora o otimismo se mantenha elevado, qualquer inversão de expectativas — seja por resultados, regulamentação ou ajustamento de taxas — poderá espoletar novas vagas de volatilidade nos mercados.

Em suma, o segundo semestre de 2025 exige uma abordagem prudente, mas não paralisada. 

O fundo de investimento recomendado para o segundo semestre de 2025

Tendo em conta o atual contexto de elevada incerteza geopolítica, que provoca impactos diferenciados em diversos setores e geografias, mas mantendo-se uma perspetiva económica global positiva, consideramos que um fundo de ações long/short com exposição líquida positiva constitui uma opção de investimento apelativa. Atualmente, o fundo Marshall Wace TOPS está bem alinhado com os nossos interesses, tratando-se de uma categoria de fundos em que temos estado ativamente a realizar prospeção.

Área de crédito em foco

Temos mantido um considerável interesse na área de crédito tanto em mercados públicos como privados para diversos níveis da estrutura de capital. O extenso período de taxas próximas de zero criou distorções significativas no mercado de crédito, fomentando complacência e estruturas de capital frágeis. Cremos que tendo terminado esse período, à medida que o refinanciamento se vai fazendo ao longos dos próximos anos criará oportunidades para os gestores disciplinados e capazes de avaliar adequadamente situações de stressed e distressed.