Que riscos além das eleições dos EUA enfrentam agora os investidores

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Unai Urbex, flickr, creative commons

Nas últimas semanas houve um acontecimento que marcou a agenda dos investidores, as eleições presidenciais dos EUA. Uma onda azul era esperada, mas finalmente, à data de hoje, essa onda azul deu lugar a um dos piores cenários: um Congresso novamente dividido com um presidente como o democrata Joe Biden e um Senado de maioria republicana. À espera para ver se essa fotografia se confirma ou não – devemos lembrar que os votos podem continuar a ser contados até 8 de dezembro – temos de começar a analisar o que pode mover o mercado e os seus investidores. Podem ser identificadas três grandes frentes.

1. Os bancos centrais renovam o seu protagonismo

Na enchente de comentários que enviaram as gestoras de ativos nos últimos dias, houve uma ideia que dominou: a possibilidade de que o plano de estímulos económicos que tanto procura Wall Street se atrase ou, no mínimo, se reduza devido à falta de um Congresso unicolor. “Um Congresso dividido, e ainda mais um resultado disputado, são maus presságios para as perspetivas de um novo pacote de estímulos”, afirma James Athey, diretor de Investimentos da Aberdeen Standard Investments.

É preciso ter em conta que alguns apontavam que uma onda azul poderia aumentar até três biliões o novo pacote de estímulos, e agora fala-se que no caso de ser finalmente aprovado este pacote fique abaixo de um bilião. “Vai ser algo na faixa dos 500.000 milhões de dólares a um bilião, ao contrário de um estímulo de 2.5 ou 3 biliões de dólares sob um cenário de onda azul. Por isso, não é tão positivo quanto o estímulo de crescimento a curto prazo que se tinha começado a ver em algumas ações”, afirma Scott Glasser, Co-CIO da ClearBridge Investments.

Esta incerteza no que respeita a política fiscal voltar a por valor no outro grande pilar em que se apoiou o mercado nos últimos meses: a política monetária. “A falta de estímulo fiscal vai requerer mais tarde ou mais cedo que a Fed reaja, e isso é preocupante. As ferramentas que a Reserva Federal utiliza produziram durante muito tempo distorções pouco saudáveis nos preços dos ativos e os mercados estão cada vez mais programados para saber que o banco central vai intervir à vista dos problemas. Este tipo de dependência não é saudável”, afirma Athey.

Esta dependência não se vê só nos EUA. Também se vê na Europa, onde as manobras de política fiscal começam a esgotar-se ao mesmo tempo que a incerteza económica cresce após a confirmação de uma nova onda de COVID. “É possível que o BCE necessite em dezembro de fazer mais coisas do que simplesmente aumentar o tamanho e a duração do PEPP. As possíveis ações, em ordem de probabilidade, poderão incluir a extensão dos empréstimos condicionados a mais longo prazo (TLTRO, sigla em inglês) e corta o tipo de financiamento ainda mais; expandir as compras de ativos a outros ativos (por exemplo, obrigações bancárias); e uma orientação futura mais sólida sobre as taxas de juro e a compra de ativos”, afirma Anna Sputnyska, economista chefe da Fidelity.

2. O impacto da segunda onda de COVID-19

Justamente por trás das conversas sobre novas medidas do BCE está o medo de que a segunda onda de coronavírus a que se está já a assistir na Europa e que tem levado muitos países a anunciar novas medidas de contenção acabe por impactar a recuperação económica. “Uma queda da atividade no quarto trimestre (cerca de 4 ou 5% trimestral) parece inevitável devido às restrições renovadas”, afirma Axel Botte, economista da Ostrum AM, filial de Natixis IM.

Gilles Moec, economista de Axa IM, afirma também que esta deterioração já era observada antes mesmo do confinamento. “Os indicadores de mobilidade e atividade como o PMI indicam que já tinham começado a enfraquecer antes do ressurgimento dos casos de COVID-19, em conclusão reduzimos a nossa projeção de crescimento para a zona do euro para 4% até 2021”, afirma.

Como é lógico, esta incerteza também é transferida para a microeconomia. Com um longo inverno pela frente, o crescimento e as expectativas de lucros corporativos provavelmente terão de ser ajustados em baixa, mesmo para 2021. Vários países europeus já aumentaram ou expandiram as medidas de apoio, mas é improvável que sejam suficientes para o longo período de subatividade”, opina Esty Dweek, estratega de Natixis IM.

Não é de estranhar, portanto, que a última sondagem a analistas da Fidelity mostre os que seguem empresas europeias são os que menos confiam numa recuperação a curto prazo, 25% face aos 56% dos analistas que cobrem empresas norte-americanas.

3. Quando haverá vacina?

Se há um catalisador que espera tanto Main Street como Wall Street é que haja uma vacina efetiva contra o coronavírus. De facto, a cada novo avanço as farmacêuticas que estão em processo de desenvolvimento negoceiam em alta.

Atualmente, existem mais de 240 vacinas contra o coronavírus em desenvolvimento, das quais dez estão em fase final de testes, a chamada “fase 3”, segundo a OMS. “As expectativas de uma cura são fundamentais para a reativação progressiva da economia mundial. Apenas uma vacina disponível em todo o mundo poderia abrir caminho para uma recuperação mais completa", afirma Stéphane Monier, diretor de Investimentos de Lombard Odier. “É fundamental que façamos progressos em termos de vacinas da Covid. Nos próximos 6 a 12 meses, esta é a variável crítica para restaurar a economia e seguir em frente”, coincide Scott Glasser. De facto, a notícia desta segunda-feira de que a efetividade da vacina da Pfizer era de 90% bastou quase por si só para impulsionar os índices mais de 5% numa única sessão.

Com todas essas frentes abertas, não é de admirar que os investidores sejam um tanto cautelosos ao fazer previsões para o curto prazo. E é neste contexto que os gestores pedem prudência na modificação de carteiras e, ao mesmo tempo, pedem atenção especial à liquidez. “A situação atual é caracterizada por uma dissociação entre os mercados financeiros e a economia real. Esta será uma vulnerabilidade fundamental e um risco de recuperação se o apetite dos investidores pelo risco diminuir. Uma segunda onda do vírus, tensões geopolíticas, provavelmente envolvendo as relações EUA-China, ou histórias idiossincráticas de mercados emergentes podem desencadear restrições de volatilidade e liquidez ", alertam na Amundi.