Shanti Das-Wermes (MFS): “A coisa mais responsável que podemos fazer atualmente é ter um peso significativo em ativos livres de risco”

Shanti Das-Wermes
Shanti Das-Wermes. Créditos: Cedida (MFS)

A gama Prudent da MFS mantém as suas carteiras em modo precaução. Atualmente, tanto o Prudent Capital como o Prudent Wealth mantêm a sua exposição líquida a ações no mínimo do intervalo, o mais baixo da sua história. Concretamente, 50% no primeiro caso e 60% no segundo. Esta posição é complementada com uma exposição relevante a obrigações governamentais, como Tesouro americano ou TIPS. Mesmo a componente de crédito corporativo que o Prudent Capital pode ter, também está próximo do seu mínimo, 10% da carteira.

Tudo isto é um reflexo não só da incerteza nos mercados, mas também da importante mudança nos ativos livres de risco, explica Shanti Das-Wermes, cogestor dos fundos. E as obrigações soberanas voltaram a ser uma ferramenta útil para o investidor. O que antes gerava um retorno de base negativo, proporciona agora 4-5% sem assumir risco de crédito. E este novo/velho fator influencia a análise da alocação de ativos.

No caso do crédito corporativo, apesar da correção do ano passado, ainda não oferece um spread suficientemente interessante aos olhos da equipa gestora. “Tendo em conta os spreads de crédito das empresas, não há quase nenhum prémio de risco que compense o risco de crédito acrescentado, enquanto a yield dos lucros do mercado se aproxima da yield proporcionada pelo crédito empresarial”, argumenta Shanti Das-Wermes

É uma carteira excecional para uma situação excecional, reconhece o gestor, mas também a necessária no momento atual. “A coisa mais responsável que podemos fazer atualmente é ter um peso significativo em ativos livres de risco”, defende. Dito isto, a dívida é muito líquida, pelo que se surgir uma janela de oportunidade atrativa, a equipa não terá problemas em rodar rapidamente a carteira.

Filosofia: evitar a perda permanente de capital

A filosofia da equipa gestora é conservadora por si. Na sua opinião, o maior risco para o investidor é a perda permanente de capital. Por isso, mesmo num contexto de risk on, os gestores estariam pendentes das implicações negativas de qualquer evento. “É meramente matemático. Em 100 anos de história, a queda média (drawdown máximo) nas ações foi de 36%. Para simplesmente voltar ao ponto de partida após essa correção é necessária uma subida de mais de 50%”, argumenta Shanti Das-Wernes.

Não obstante, no atual contexto, encontram vários fatores que os leva a estarem alerta. A equação dos mercados é complexa. E, na opinião do especialista, dependerá, em grande parte, do quão permanente se tornará a inflação. No final, as subidas de preços influenciam métricas tão importantes como os fluxos de caixa, uma área em que Shanti Das-Wermes tem uma vasta experiência dado o seu passado como profissional do setor de private equity.

O custo do capital está a subir, mas também entraram em jogo fatores mais estruturais, afirma. Por exemplo, a desglobalização, ou pelo menos a menor globalização. Os negócios desfrutaram do impulso de menores custos de produção com a abertura económica da China em 2021, mas agora a tendência está a reverter-se. As alterações geográficas também estão a ter impacto. Olhemos para os Estados Unidos. O país tem uma taxa historicamente baixa de desemprego, mas, por sua vez, acusa uma baixa participação no mercado de trabalho. Isto é, em parte, explicado pelo facto da geração baby boom estar a começar a reformar-se.

Implicações para as empresas

E isto tem implicações para os negócios. “O topline (crescimento em vendas) pode ser afetado tanto em termos de custos como de procura. O consumidor médio norte-americano perdeu poder de compra real dois anos seguidos. A isto junta-se a pressão em margens que já geraram problemas nas cadeias de abastecimento, a pressão salarial e o maior capex necessário”, afirma Shanti Das-Wermes. Na sua opinião, poucos negócios estão imunes a estas mudanças.

Por isso, a componente de ações da gama Prudent é construída com base numa tese pensada a longo prazo. “Procuramos negócios que serão capazes de perdurar durante décadas. Modelos de negócio sustentáveis, com crescimento, margens e lucros acima da média”, conta o gestor. A análise é influenciada por fatores como a equipa dirigente e o conselho de administração de uma empresa, bem como por valorizações. “O preço que pagamos por uma ação também é uma maneira de nos protegermos”, explica.

Na opinião do gestor, poucos negócios estão imunes às alterações e à incerteza mencionadas anteriormente. Não obstante, a equipa gestora encontra algumas ideias que, pelo menos, proporcionam resiliência face a estes obstáculos. Assim, na carteira, através de ações, têm exposição a empresas de torres de infraestruturas sem fios. Costumam ser negócios com contratos indexados às subidas de preços e, como representam um custo mínimo para as empresas de telecomunicações, não há risco de pressão por parte do seu comprador. Em obrigações, estão a proteger-se com TIPS e obrigações norte-americanas indexadas à inflação. E, por último, também têm uma exposição a ouro através de ETF, bem como a ativos reais como a florestação.