Valérie Baudson (CEO da Amundi): “Acredito que o modelo europeu de retrocessões permite oferecer um bom serviço a todos os clientes sempre que haja transparência sobre as comissões”

Valérie Baudson. Créditos: cedida (Amundi)

As falhas da Retail Investment Strategy que continuam a ser debatidas na Europa terão profundas consequências na indústria de fundos. Na opinião de Valérie Baudson, CEO da Amundi, embora o último rascunho que está a ser proposto seja um passo na direção certa, ainda há detalhes que a deixam insatisfeita. “É justo e positivo para o mercado que se exija uma transparência nas comissões que se pagam pelos produtos de investimento”, afirma numa entrevista com a FundsPeople. “O que não me convence é a proibição total de retrocessões. Poderá ser algo difícil e prejudicial para os clientes finais e para a indústria”.

“Acredito que o modelo europeu de retrocessões permite oferecer um bom serviço a muitos clientes sempre que haja transparência sobre as comissões. A capacidade da indústria de gestão de ativos de prestar serviços de forma eficaz a todos os clientes é algo que de gostaria de ver protegido”, insiste. A CEO preocupa-se com o impacto que esta medida terá para o pequeno aforrador. “O modelo predominante na Europa continental, de bancos universais onde os clientes podem aceder a todos os tipos de produto de poupança, é um modelo que beneficia qualquer investidor, mesmo os que têm poupanças mais modestas”, sublinha. A diretora teme que a RIS possa levar a indústria europeia a uma situação como a do Reino Unido após a implementação da sua própria regulamentação. “Criou um mercado em que o investidor tem de ter pelo menos 100.000 euros de património para ser assessorado”, alerta.

Um consolidador natural do mercado

Basta poucos minutos a conversar com Valérie Baudson para se entender que estamos na presença de uma verdadeira mulher de negócios. Pragmática e direta, a diretora não vê o crescimento em veículos cotados como algo mais do que uma tendência conduzida pelo apetite do investidor. “Não sei quando é que o nosso património de gestão ativa vai ultrapassar o de gestão passiva, mas, francamente, a única coisa que importa e o que impulsiona todas as nossas ações é o acesso do cliente ao produto que quer, quando quer. Há alguns anos, os investidores pediam-nos mais produtos estruturados. Atualmente, esse tipo de veículos encontra-se menos no radar dos investidores, mas temos desenvolvido novas propostas. Vamos continuar a adaptar a nossa gama como já o fazíamos na altura”, insiste. Na sua opinião, essa agilidade e capacidade de adaptação é o que os tornou a única gestora europeia entre os gigantes da gestão a nível mundial

“Somos um consolidador natural no mercado e temos capital caso tenhamos de fazer investimentos ou operações de compra para desenvolver a nossa oferta”, garante. Mas para a diretora, não se trata de comprar só por comprar. “Seja para entrar num novo mercado, seja para comprar uma entidade, procuramos sempre um retorno sobre o investimento de pelo menos 10%, e precisamos de estar seguros de que temos a capacidade para gerir adequadamente a integração”, conta.

Mercados privados e ETF

No contexto atual, a diretora está convicta de que a gestão passiva e os ETF vão ser um motor importante de crescimento para a empresa no curto-médio prazo. A grande mudança que identifica é que os ETF estão a entrar no público de retalho na Europa. “Os ETF já se estabeleceram em mercados como o americano, onde há uma vantagem fiscal. Na Europa, a forte tendência começou desde o início da pandemia. Agora, estes produtos são populares tanto entre investidores institucionais, como particulares. Em países como a Alemanha, tiveram uma adoção massiva por particulares, com o impulso de plataformas de investimento digitais”, conta.

Outra das grandes tendências que a CEO identifica é o desenvolvimento dos mercados privados. “Têm-se tornado uma opção-chave para os investidores institucionais, mas não estarão reservados apenas para eles”, prevê. Assim, a compra de há uns meses da empresa suíça Alpha Associates é uma pista sobre como a Amundi se está a preparar para um apetite de investidor mais amplo. A operação dá-lhes acesso à experiência de uma gestora de ativos independente que oferece soluções de investimento multi-manager em mercados privados.

Ásia como mercado para continuar a explorar

A Amundi não pensa em expandir-se apenas com novas classes de ativos, mas também através da sua pegada geográfica. Outras das linhas do seu plano estratégico é posicionar-se entre as gestoras na Ásia. “O crescimento do mercado da gestão de ativos na Ásia vai ser duas vezes mais rápido do que o europeu nos próximos anos”, prevê. “Uma gestora tem de olhar para onde se encontra o maior ritmo de crescimento das poupanças, e, atualmente, é na Ásia”. E quando fala da Ásia, já não é apenas da China. A Índia também é uma potência em crescimento onde a gestora francesa já detém 18% da quota de mercado através da sua joint venture com o State Bank of India.

Tecnologia

Mas estas três linhas de crescimento não se entenderiam sem o quarto foco de atenção da Amundi: o investimento em tecnologia. Começando com o lançamento em 2018 da sua plataforma ALTO, a gestora procura oferecer uma solução completa e “criar o ecossistema inteiro da experiência para o investidor”, como o define Valérie Baudson.

A ALTO é uma ferramenta para gestores, bancos, banqueiros privados, distribuidores e consultores com tudo aquilo de que precisam para gerir o património dos seus clientes ao longo de toda a cadeia: desde a análise de carteiras até ao apoio à comercialização do produto para o cliente final. “Colocar novos produtos na gama de oferta já não é, definitivamente, suficiente”, afirma. “Sim, ter bons fundos que superem os seus índices de referência continua a ser essencial, mas a gama de fundos por si só já não é diferencial”, insiste.