Uma pausa de 90 dias e uma redução recíproca das tarifas entre os Estados Unidos e a China em 115%. É o que se lê no comunicado conjunto publicado após o encontro económico e comercial realizado no fim de semana, em Genebra, entre os representantes do comércio de ambos os países. Tanto a China como os Estados Unidos vão reduzir as suas tarifas em 115%, baixando-as para 10%. Ainda segundo o comunicado, a suspensão entrará em vigor "até 14 de maio de 2025".
Entretanto, após o anúncio, o dólar valorizou face às principais moedas e os mercados recuperaram, aliviando os receios surgidos após o passado dia 2 de abril, por ocasião do Liberation Day e da escalada das medidas tarifárias aplicadas pelo presidente Trump com o objetivo de reduzir o défice comercial dos EUA. Uma decisão que surge na sequência do novo acordo celebrado com o Reino Unido na semana anterior.
“Esta pausa e este período de abrandamento das tensões comerciais entre os EUA e a China irão contribuir para prolongar o rally iniciado em meados de abril, sustentado principalmente pela convicção de que o pico das incertezas comerciais já ficou para trás”, afirma Jean-Louis Nakamura, responsável de Conviction Equities da Vontobel. O especialista destaca que os mercados recuperaram a totalidade da queda registada nos primeiros dez dias de abril, “enquanto as tarifas aplicadas continuam significativamente mais elevadas do que anteriormente, e ainda não temos uma visão clara da dimensão dos danos entretanto causados à economia global (em particular nos Estados Unidos e na China)”, admite.
Segundo o profissional, nos próximos dois meses, uma série de dados sobre a economia real confirmarão se a queda de alguns indicadores recentemente divulgados foi exagerada. “Poderemos assistir a um braço de ferro entre os anúncios antecipados de acordos mais sustentáveis e abrangentes, mais próximos da situação de partida, e os dados concretos que sugerem um rápido enfraquecimento da procura interna nos Estados Unidos e uma dinâmica das exportações na China. Se prevalecerem estes últimos, os mercados poderão enfrentar uma nova vaga intensa de volatilidade”, prossegue.
Assim, por agora, a guerra comercial ainda não terminou. Apesar disso, segundo Filippo Diodovich, Senior Market Strategist da IG Italia, o passo dado pelos Estados Unidos e pela China foi muito importante e trará grande alívio aos mercados financeiros. “Acreditamos que se possa assim concretizar um dos cenários mais favoráveis para os mercados acionistas, ou seja, que as tarifas elevadas de Trump foram apenas um meio para levar à mesa de negociações países que, segundo o Presidente, aplicavam práticas comerciais desleais para com os Estados Unidos”, admite. Deste modo, segundo o especialista, não se concretizaria o decoupling das duas economias, “o processo de separação económica e tecnológica entre as duas maiores potências mundiais, como também declarou o Secretário do Tesouro Scott Bessent há alguns dias”, explica.
Enquanto isso, Paul Diggle, chief economist da Aberdeen Investments, sublinha que ambas as partes declararam no final das conversações que não pretendem avançar para um “decoupling económico”, embora os Estados Unidos tenham identificado “cinco ou seis setores estratégicos” (como o farmacêutico ou o aço) nos quais pretendem obter um “reequilíbrio estratégico”.
De facto, segundo o economista-chefe, “Trump compreendeu que um embargo efetivo ao comércio entre os Estados Unidos e a China não é economicamente sustentável. A administração norte-americana precisa de conquistas para alterar o sentimento dos mercados e a opinião pública sobre o desempenho da economia”, afirma. Nos Estados Unidos, a vaga de incerteza teve um impacto evidente nos índices de confiança, “embora este efeito esteja agora a começar a dissipar-se. A hard data está distorcida pelas tarifas, mas é provável que o abrandamento económico subjacente esteja apenas a começar”, afirma.
Três considerações para os investidores
Embora, como já foi dito, os cortes sejam temporários, segundo Stuart Rumble, head of Investment Directing, Asia Pacific da Fidelity International, representam um sinal encorajador para os mercados e deverão contribuir para restaurar a confiança. Os investidores devem prestar atenção a três considerações. Em primeiro lugar, as reduções “representam uma mudança clara na carga tarifária efetiva global. O regime tarifário elevado entre os Estados Unidos e a China já causou grandes perturbações, reduzindo o comércio bilateral entre as duas maiores economias mundiais e aumentando o risco de um abrandamento global mais amplo. Embora nenhuma das duas economias esteja atualmente perto de um ponto de rutura, uma redução significativa das tarifas contribui para mitigar esse risco”, afirma o especialista.
Em segundo lugar, houve uma deslocação dos fluxos comerciais globais, o que é um fator importante para os investidores que estão a rever as suas alocações na Ásia. “A quebra do comércio direto entre os Estados Unidos e a China levou a um aumento do desvio através do Sudeste Asiático e de outros países terceiros. O diferencial tarifário continua a ser relevantes e vai continuar a influenciar os fluxos comerciais em função da competitividade relativa, da capacidade infraestrutural e das respostas políticas nacionais”, comenta.
Por fim, este desenvolvimento “deve ser visto pelos investidores como um alívio das tensões no contexto de uma mudança mais ampla e de longo prazo nas relações entre os Estados Unidos e a China, rumo a uma maior autossuficiência”, sublinha Rumble.
Alocação de ativos: um olhar para oriente
Também segundo Jason Pidcock e Sam Konrad, gestores do fundo Jupiter Asia Pacific da Jupiter AM, está-se a caminhar para uma separação entre os Estados Unidos e a China, que poderá beneficiar outros mercados asiáticos, à medida que a capacidade produtiva e os intercâmbios comerciais se deslocarem a seu favor. “O Japão, o Vietname e a Coreia do Sul expressaram a sua disponibilidade para negociar com os Estados Unidos em matéria de tarifas. Consideramos que a administração Trump assinará provavelmente acordos comerciais com um número significativo de países nos próximos três meses e que os níveis tarifários atingiram mais ou menos o pico, podendo ser reduzidos, nalguns casos para menos de 10%”, comentam.
Ambos os gestores sublinham que a China continua a ser um componente dos índices acionistas regionais e globais e “notamos que muitos dos nossos fundos de referência continuam a investir no país”. Além disso, consideram que os maiores mercados da Ásia oferecem uma boa liquidez e um potencial de rentabilidade por dividendos interessante para os investidores mais atentos. “É importante ter uma diversificação, tanto a nível global como setorial. Embora as perspetivas comerciais a curto prazo continuem voláteis e imprevisíveis, acreditamos que existem argumentos sólidos a favor do investimento na Ásia a médio-longo prazo”, concluem.




