COLABORAÇÃO de Mário Carvalho Fernandes, CIO, e Tiago Gaspar, responsável pela Análise e Seleção de Fundos, do Banco Carregosa.
A economia global deverá manter-se em 2026 num ponto de equilíbrio instável. Um aparente ambiente benigno de crescimento e inflação moderados, mas que resultam do efeito líquido de forças opostas, tanto inflacionistas como deflacionistas, e de expansão como de retração económica. O crescimento económico positivo deverá conviver com a potencial persistência da inflação e a dependência crescente do sistema no ciclo de investimento em inteligência artificial (IA). Nesta fase de ciclo, a estratégia de investimento passará por privilegiar a segurança no lado dos ativos de rendimento fixo e procurar retorno ativo (alpha) no mercado acionista, gerindo com cautela a exposição ao risco de mercado, que se encontra concentrado num grupo restrito de ativos que não se afiguram como particularmente baratos.
O que esperar dos EUA, da zona euro, da China e do Japão
O cenário central aponta para a manutenção de um ritmo de crescimento económico moderado, mas com dinâmicas regionais e riscos específicos.
A economia americana demonstra resiliência sustentada pelo consumo, o mercado laboral, em desaceleração, mas ainda robusto, e o papel de liderança nos investimentos em IA. O risco principal reside na inflação, que se poderá manifestar mais persistente e que tornará o caminho da Reserva Federal (Fed) para cortes graduais de taxas muito estreito. Nesse aspeto será relevante monitorizar o risco de politização da Fed, os valuations elevados em large caps e o crescimento dos défices fiscais.
A zona euro beneficia de inflação controlada (próxima do objetivo de 2%), o que facilita a política do Banco Central Europeu (BCE). Contudo, o grande desafio continuará a ser o crescimento fraco, acrescido de incerteza política (com destaque para França) e das elevadas necessidades de financiamento dos governos.
A China emerge com força tecnológica renovada e políticas anti-deflacionárias, mas as fragilidades persistem no setor imobiliário. O crescimento é moderado e a geopolítica (tensões com os EUA) permanecem como um risco constante.
O Japão beneficia de reformas corporativas e do potencial de valorização do iene. O risco central é que a inflação ascendente force o Banco do Japão (BoJ) a subir as taxas, alterando o seu regime de política monetária, e que resulte em movimentos de capitais que contagiem os níveis das taxas de juro a nível global, nos prazos mais longos.
Em geral, os mercados emergentes continuam a oferecer yields atrativas e diversificação, especialmente em dívida local. Contudo, essas yields acarretam riscos que decorrem da volatilidade cambial e da exposição a políticas comerciais protecionistas.
O crédito global diversificado de curto prazo
Num contexto de equilíbrio instável onde os riscos macro são antagónicos, a escolha preferencial recai sobre as classes de ativos que oferecem segurança com rendimento e proteção contra a inflação. A classe de ativos preferida é o Crédito Global Diversificado de curto prazo.
Esta escolha é justificada pela sua capacidade de, mesmo num eventual ambiente de taxas de juro estruturalmente mais altas:
- Oferecer all-in yields ainda atrativas.
- Garantir uma duração curta na carteira, o que protege contra surpresas inflacionistas e a consequente subida das taxas de juro de longo prazo.
- Proporcionar rendimento corrente consistente.
Esta abordagem é superior à simples liquidez, pois combina a segurança (duração curta) com a rentabilidade (rendimento corrente), e alinha-se com um princípio de investimento central: em crédito, evitar os perdedores é mais importante do que encontrar os vencedores.
Riscos a monitorizar
Consideramos que é importante estarmos focados em três grandes áreas de risco que podem desequilibrar a economia global:
- Risco de inflação persistente: é o risco que, não sendo o cenário central, consideramos mais provável. Os estímulos fiscais e o ciclo de investimento privado forte criam condições para um sobreaquecimento. A pressão da procura de eletricidade (centros de dados de IA, veículos elétricos) na infraestrutura energética e nos preços é um ponto a vigiar.
- Deterioração fiscal e institucional: o endividamento excessivo dos governos e a dificuldade em aprovar orçamentos equilibrados agravam a instabilidade política e social. A par disto, a deterioração da independência da Fed e o impacto na credibilidade do dólar são riscos que podem afetar de forma sistémica os mercados.
- Risco de concentração em IA: os índices acionistas estão excessivamente concentrados em poucas empresas correlacionadas e dependentes do tema da IA. Esta circularidade deixa o mercado muito vulnerável a comportamentos especulativos e a qualquer percalço tecnológico ou regulatório.
As estratégias recomendadas
A estratégia proposta não se foca num fundo único, mas sim numa abordagem de portfólio barbell, que combina um gestor oportunista de crédito e uma exposição acionista com foco em alfa.
Assim, na componente de obrigações, propomos a alocação num fundo de Crédito Global, como o Oaktree Global Credit, com uma filosofia de gestão rigorosa e avessa a perdas permanentes de capital. Este tipo de fundo deve ser flexível para alocar taticamente entre high yield bonds, senior loans (preferência pelos europeus, que oferecem pickup de rendimento) e crédito estruturado (onde a complexidade cria ineficiências de preço que gestores especializados podem explorar).
Em relação à classe de ações, num ambiente de valuations elevadas e concentração extrema, propõe-se uma abordagem que procura capturar alpha de seleção de títulos em vez de depender do beta do mercado. Fundos com estratégias de ações long/short são ideais, pois beneficiam da crescente dispersão entre vencedores e perdedores no mercado. Neste domínio, destacámos o fundo Marshall Wace TOPS.
Como aumentar a diversificação das carteiras em 2026?
Existem atualmente três linhas orientadores que podem contribuir para aumentar a diversificação das carteiras em particular face aos benchmarks, com elevada concentração num pequeno número de empresas, e que podem contribuir para obter uma melhor relação retorno/risco de uma carteira global e diversificada:
- O investimento deve alargar-se além das mega caps de tecnologia para as áreas que fornecem a infraestrutura incontornável da IA: produção e distribuição de eletricidade, empresas de construção e serviços para centros de dados, e setores que providenciam formação e consultoria para otimizar procedimentos. Assim, procurámos beneficiários de segunda ordem da IA, mas privilegiamos empresas com balanços sólidos e visibilidade de receitas.
- Manter uma exposição a ativos reais como o ouro, imobiliário e infraestruturas que podem atuar como proteção contra eventos de instabilidade financeira.
- A necessidade de informação concentra-se em acompanhar a concretização dos investimentos e a evolução dos lucros das empresas que se assumem como fornecedores para a infraestrutura da IA, avaliando a sustentabilidade e a escala dos seus projetos e os beneficiários imediatos deste ciclo de investimento.

