Víctor de la Morena (Amundi): “Estamos num mundo ideal para investir em obrigações”

Víctor de la Morena Amundi
Víctor de la Morena. Créditos: Cedida (Amundi)

“A economia surpreendeu-nos. Foi capaz de se esquivar das pressões de desaceleração. Um mercado de trabalho robusto, um consumidor norte-americano disposto a endividar-se e a prolongar o ciclo do consumo, o desafogo das matérias-primas… Tudo isto são fatores que fizeram com que as economias tenham aguentado”, explica Víctor de la Morena. Mas o cenário do diretor de Investimentos da Amundi Iberia não mudou e assinala que, apesar da força macro que vimos na primeira parte do ano, a recessão vai chegar. “Continuamos a acreditar que vai acontecer. De facto, já aconteceu na Europa e também chegará aos EUA. Nas sete últimas ocasiões em que a curva se inverteu, em todas se produziu essa contração da atividade”, recorda.

Tal como o especialista previu numa apresentação a jornalistas, celebrada nos escritórios da Península Ibérica da gestora, não só vamos entrar num regime económico abaixo do potencial em comparação com os níveis históricos, como também esse crescimento será protagonizado pelos mercados emergentes. “Esperamos que o crescimento dos mercados desenvolvidos abrande para 0,9%, enquanto o crescimento do PIB nos mercados emergentes deverá acelerar para 4,2%”.

Na Europa, Víctor de la Morena considera que, tendo a Alemanha já entrado tecnicamente em recessão, o início desta queda do PIB estaria a ocorrer agora. “A Europa começaria a sair da recessão na segunda metade do ano, enquanto nos EUA seria ao contrário: o país entraria em recessão na segunda metade deste ano para começar a ver crescimento positivo na primeira metade de 2024”, afirma.

As projeções da entidade francesa apontam para uma descida da inflação nos EUA para níveis na ordem dos 3%. “Isto é muito importante porque nos diz que a Fed está muito próxima de terminar a sua política de subida de taxas. As taxas atingiram o seu máximo nos Estados Unidos. Na Europa, o BCE ainda pode ter mais uma subida, que terá lugar em julho, deixando-as em 3,75%”. E, a partir daí, o que acontece?

Visão longe de ser consensual

A visão da Amundi está muito longe de ser consensual. “Nos Estados Unidos, com a queda do PIB e os preços sob controlo, começaremos a ver as taxas de juro a descer já a partir do primeiro trimestre do próximo ano, situando-se em cerca de 3% no final de 2024. Algo parecido irá acontecer no Reino Unido e também na Europa, com o BCE a colocar as taxas em cerca de 2,5% até finais do próximo ano”.

Tudo isto não está refletido no mercado. “Não é o que a curva projeta. Não está no consenso e é de grande importância não só para os empréstimos hipotecários, como também para a evolução dos ativos financeiros”.

De facto, são aspetos que têm uma grande influência na sua visão dos mercados e na alocação de ativos da casa. “Estamos num mundo ideal para investir em obrigações, sobretudo em dívida pública a curto prazo. No mercado de obrigações ganha-se dinheiro quando as taxas de juro baixam. Quando as taxas estão em máximos, dizem que não vão subir e, além disso, esperamos que baixem nos próximos 12 meses, é o melhor momento para entrar”, sublinha.

Subponderados em ações

Em ações, o especialista acredita que haverá uma quebra como consequência da queda dos lucros empresariais, sendo o mercado americano aquele em que vê maior risco, devido à maior desaceleração que prevê para a sua economia. “Estamos subponderados em ações. Não estamos positivos na Europa, mas no mercado de ações preferimos assumir mais risco em ações europeias do que em ações americanas. Devemos evitar sobretudo os segmentos mais caros dos Estados Unidos e evitar concentrar as carteiras em ações relacionadas com as big tech. É um fator de risco significativo”, aconselha.

As suas principais apostas centram-se em ações de empresas que não sofrem particularmente neste contexto de desaceleração e deterioração da atividade. E que ações são essas? “Para começar, as que não estão caras. Quando há uma correção, o que mais cai é o que está mais inflacionado. As que estão baratas resistem melhor. E também as linhas de negócio que não estão expostas a essa dependência do ciclo económico, principalmente setores mais defensivos, como os de qualidade ou dividend yield”, afirma. 

Também recomenda não deixar de lado os mercados emergentes. “É onde se vai concentrar duas terças partes do crescimento global”, recorda. Concretamente, de acordo com as estimativas da entidade, a Ásia deverá ser responsável pela maior parte do crescimento em 2023. Aproximadamente 70%. E o investimento estrangeiro direto também deverá contribuir significativamente para a reativação da atividade. “Na Ásia já tomámos posições, sobretudo na China”. Para o gigante asiático, projetam um crescimento do PIB de 5,7% em 2023 e de 4,3% em 2024.