Implicações para o investidor no tapering nos EUA: o início do fim

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Créditos: Raúl Nájera (Unsplash)

Ainda não sabemos exatamente quando ou como será, mas sabemos que chegará nos próximos quatro meses. Falamos de tapering, do fim da compra de ativos pela Reserva Federal dos Estados Unidos. O início do fim desta nova ronda de estímulos monetários.

A Fed deixou claras as suas intenções durante o simpósio realizado em Jackson Hole.  O plano, tendo em conta as circunstâncias atuais, é que deverá começar o tapering em 2021. Logisticamente, isto reduz as possibilidades para apenas duas reuniões: a de setembro e a de novembro.  Isto porque vai precisar de uma primeira reunião para comunicá-lo ao mercado e de uma segunda (o mais tardar, a de dezembro) para implementá-lo. Esta quarta-feira à tarde obteremos mais uma pista.

E não há um consenso claro no mercado. É um processo que pode mesmo ser adiado para as próximas três reuniões.  Por exemplo, com um aviso formal nesta reunião de 22 de setembro de que a redução gradual está a caminho, depois um anúncio completo na reunião de 3 de novembro, incluindo a velocidade crucial do processo, para a sua implementação a partir da reunião de 15 de dezembro, como considera provável Gilles Moëc, economista-chefe da AXA IM. No entanto, Moëc insiste que ainda pode haver muitas mudanças.  Jon Day, gestor da Newton (BNY Mellon IM) tem um pensamento semelhante. “A mensagem da Fed pode tornar-se mais urgente, mas vão ser pacientes em anunciar um início formal para a redução gradual.   A reunião de novembro parece ser um momento mais sensato para disparar outro tiro de partida”, opina.

Implicações para as obrigações

Mas falar de normalização não é necessariamente negativo para as obrigações. “É difícil mudar o regime de baixas taxas por mais tempo, dada a natureza desigual da recuperação”, reconhece Mondher Bettaieb-Loriot, responsável de obrigações corporativas da Vontobel AM. Na sua opinião, o ponto fraco continua a ser a inflação. E em caso de dúvida, a Fed optará por ser mais cautelosa do que agressiva quando se trata de tocar nas taxas de juro. E há consenso sobre isto. As gestoras internacionais veem uma Fed prudente e comedida nos próximos passos. Assim, a equipa Global de Macro e Alocação de Ativos da Fidelity uma subida de taxas improvável antes de 2023.  

No entanto, o debate sobre os preços continuará. “A inflação real pode permanecer acima do objetivo por mais tempo, testando a tolerância da Fed”, reconhecem. E Moëc concorda em citar a inflação como o ponto de discórdia. “Os dados mais recentes sugerem que alguns dos elementos que empurraram a inflação subjacente para um máximo de três décadas começaram a estabilizar”, ressalta.

Mas antes que a visão transitória seja questionada, na Fidelity esperam uma inclinação modesta da curva.  Por isso, mantêm uma duração negativa na sua alocação de ativos táticos, com preferência pelas áreas de maior rentabilidade do mercado de crédito.

Para Bettaieb-Loriot também é improvável que as rentabilidades do Tesouro voltem a subir.  Também favorece as empresas de ambos os lados do Atlântico.  “Por isso, vamos continuar confortáveis com a nossa ideia de que os spreads não estão muito estreitos no mercado europeu de investment grade”, argumenta. “A segunda metade do ano pode ser um período muito atrativo para o carry, agora que Jackson Hole nos deu uma boa pista de que as rentabilidades provavelmente atingiram o seu pico.”  

A bola continua a rolar

Talvez o verdadeiro desafio chegue no próximo ano. Especialistas como Sebastien Galy, responsável da estratégia macroeconómica da Nordea AM, preveem uma segunda metade difícil de 2022.  

Segundo prevê, à medida que a liquidez se retira lentamente através do tapering, os numerosos canais de quantitative easing vão inverter-se ligeiramente, como vimos na semana passada. Em estilos com elevada alavancagem e expetativas de crescimento, isso pode levar o mercado a novas hesitações.  Algo que deve ser amplificado à medida que as taxas de juro sobem. “Isto torna a alavancagem mais cara e os credores mais prudentes”, analisa.  Um aumento crescente do custo de alavancagem deve igualmente abalar a indústria de valor relativo, onde é utilizada uma alavancagem extrema para explorar oportunidades moderadas.

“Portanto, a questão é se os estilos podem corrigir brutalmente a sobrevalorização ou se precisam de um medo de uma recessão”, destaca Galy.  Se uma recessão chegar, só virá em 2023, mas o economista considera-a improvável. “Portanto, o que nos resta para o próximo ano é saber se podemos manter a narrativa impulsionada pela alavancagem do high yield e crescimentos”, sentencia.