Leilão de dívida portuguesa a curto prazo ainda com taxas negativas, mas esperam-se subida das taxas por parte do BCE

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Créditos: Louis Paulin (Unsplash)

Depois da última reunião do BCE em que Frankfurt deixou os juros parados, surge mais uma emissão de bilhetes de tesouro. Portugal foi esta quarta-feira aos mercados para uma emissão a três meses, onde colocou 800 milhões de euros em dívida, e a 11 meses, colocando mais 451 milhões. “O movimento nas taxas foi diferente em função das maturidades. No leilão de 3 meses assistimos a uma descida da taxa de -0,618% para os atuais -0,64%, já no leilão para 11 meses, a taxa subiu dos -0,555% para os -0,314%”, indica Filipe Silva, diretor de Investimentos do Banco Carregosa.

Estas ligeiras discrepâncias acabam por refletir o movimento que temos tido nas curvas de taxas de juro das dívidas soberanas mundialmente. A guerra na Ucrânia, tem tido um impacto na evolução das economias mundialmente, mas com maior incidência na Europa. Assistimos a uma revisão em alta das previsões das taxas de inflação para 2022, por força de preços de energia e matérias-primas mais elevados, e a revisões em baixa das perspetivas de crescimento globais, motivos que têm feito os Bancos Centrais ajustarem as suas políticas monetárias mais rapidamente do que inicialmente se assumia”, conta o profissional do Banco Carregosa.

E, ainda que o BCE tenha adotado uma postura mais dovish e deixando a política monetária inalterada na reunião de abril, Filipe Silva assume que “todos estes fatores têm elevado as taxas de juro, e espera-se uma subida das taxas por parte do BCE no final do ano”. De facto, “Portugal começa a sentir os efeitos deste movimento e apesar de nestes leilões de curto prazo ainda estarmos com taxas negativas, parece ser uma realidade com os dias contados.”

Expectativa de uma subida das taxas de juro

Lagarde deixou claro na conferência de impressa dessa reunião que primeiro projeta concluir o programa de compra e só depois tratará de falar sobre o aumento das taxas. "Trataremos da subida de taxas quando chegar a altura", disse. Esclareceu, no entanto, que "o BCE está pronto para ajustar todos os instrumentos dentro do seu mandato, incorporando flexibilidade se necessário". Além disso, salientaram no comunicado que "a evolução económica dependerá crucialmente da evolução do conflito".

De facto, Wolfgang Bauer, fund manager da Public Fixed Income Team da M&G, compreende que Lagarde não queira seguir um caminho mais assertivo para a normalização da política monetária neste ambiente difícil para a Europa. No entanto, segundo o gestor, o risco é que o banco central fique mais aquém da curva, "o que poderá forçá-lo a agir ainda mais vigorosamente ao longo do ano", diz.

Já para Anna Stupnytska, economista global da Fidelity International, um aumento das taxas só acontecerá "no quarto trimestre deste ano ou no início de 2023".

E embora Justin Jewell, gestor especializado em obrigações high yield na BlueBay AM, também veja uma política monetária mais ajustada, refere numa entrevista à FundsPeople que isso não implica necessariamente níveis críticos para as obrigações. “É muito difícil para mim imaginar taxas de juro na Europa acima de 2%”, dizia o especialista.